segunda-feira, 23 de março de 2026

O amor tem cheiro de pão

 

O amor tem cheiro de pão saindo do forno.

Descobri que meus pais diziam “eu te amo” desse jeito: minha mãe, mexendo panelas; meu pai, entre um gole de café e uma aula de matemática.

Minha mãe tinha mãos que sabiam os tempos do mundo. O “pão de minuto” nunca levou um minuto, mas sempre chegou no instante certo: para mim, quando a tarde pedia abrigo, quando a infância precisava de um cheiro que desse chão aos dias. Entre fornadas, ela assava biscoitos de goiaba e uma felicidade simples, dessas que acompanham filmes vistos de tarde e uma casa em silêncio bom. Não discursava sobre sentimentos. Em vez disso, cuidava de mim — a mesa posta, o prato servido, o gesto repetido como quem diz sem palavras: aqui você está seguro. Era o jeito dela de não me deixar passar fome — nem de comida, nem de afeto.

Meu pai preferia as ideias. Falava de filosofia de vida entre baforadas de um Hollywood e goles curtos de café, como quem comenta o tempo — sem pose, sem solenidade. Quando a noite se adensava, a casa virava conversa: “Vamos ver isso aqui, filho.” Às vezes era uma fração, às vezes era a vida. Dizia sempre que “o arco-íris é em preto e branco” — a vida não vem colorida de graça.

E, quando aparecia um problema, encerrava o assunto com a frase que mais me ensinou: “bola pra frente.” Eu aprendia, claro, mas aprendia outra coisa ainda maior — que alguém acreditar em você é uma forma silenciosa de amor. Eu não sabia, mas ele desenhava, com gestos mínimos e frases repetidas, o contorno da minha coragem.

Descobri ainda menino que, quando jovem, meu pai escondia livros proibidos na casa do meu avô. Livros que falavam de igualdade, de liberdade — palavras perigosas naqueles tempos. Alguns amigos dele foram presos, outros torturados. Os livros, um dia, foram queimados. E, mesmo assim, o amor pelas ideias continuou queimando dentro dele. Foi com esse fogo discreto que ele me ensinou que pensar também é uma forma de amar.

Havia regras. Não porque o amor goste de grades, mas porque sabe o valor dos limites. Televisão tinha hora. Livro, nunca. Em dezembro, meu presente aguardava na Rua da Alfândega: dinheiro contado, escolha inteira. Fast food quase não entrava; o fogão já dava conta da festa. Houve, porém, uma exceção que virou lembrança: num feriado religioso, fomos ao McDonald’s do centro da cidade. Meu avô, depois da comilança, ficou sério por um instante e disse, meio culpado: “Hoje não podia comer carne.” O estômago, no entanto, agradeceu — e voltamos para casa felizes, com a sensação discreta de que a vida também se faz desses pequenos desvios.

Depois vinha o corpo em movimento: esporte, sol, cansaço bom.

À maneira deles, souberam dizer não — coisa que hoje faz muita falta. Quando eu e meu irmão, depois de horas insistindo, finalmente conseguimos falar com o palhaço Bozo, ao vivo na televisão, nosso pai chegou na hora errada e desligou o telefone. Ficamos tristes. Perdemos a pureza ou apenas aprendemos cedo demais?

Liberdade, aliás, foi o maior presente deles. Não nos impuseram religião; abriram as janelas e confiaram que o vento traria respostas. Nunca barraram amigos; nossa sala era um porto com muitas cadeiras. E, quando o assunto era amor, meu pai tinha um princípio irretocável: “Aqui eu não posso escolher por você.” Deixou que eu aprendesse no tropeço o que nenhum conselho ensina. Se havia medo, não era de perder o controle, mas de perder a honestidade. Em casa, ninguém fingia para agradar. A palavra “amor” nunca veio embrulhada em purpurina. Veio limpa — pouca, quando era pouca; inteira, quando era inteira.

Meus pais não se vestiam de marcas, vestiam-se de si. O Jornal do Brasil chegava cedo; “O Globo” não passava da portaria e a Veja nunca encontrou a maçaneta. Era menos uma guerra contra publicações e mais um lembrete cotidiano: pensar é um exercício, não um contrato. Talvez por isso a conversa estivesse sempre posta, como a jarra de água no centro da mesa. A briga também aparecia, é verdade. Depois da discussão, vinha o silêncio que arruma, o pão que reconcilia, a mão que encosta no ombro. O amor erra e volta.

Houve também tempestades. Dias em que o vento batia portas, levantava poeira e fazia a casa parecer menos segura. Palavras duras, gestos que não merecem virar memória de família. Com esses faço como com as nuvens mais pesadas: não prendo, não revisito em excesso, deixo o vento levar. Brigas infrutíferas não viram herança; passam como o mau tempo que não define a estação.

Domingos eram um rito. Às vezes a feira, às vezes o estádio. Meu pai me levou a São Januário e ao Maracanã para ver o Vasco, e ali eu aprendi uma espécie de gramática do pertencimento: o coro que junta desconhecidos, a alegria que não pede permissão, a tristeza que termina em abraço. Quando a bola entrava, eu achava que o mundo cabia inteiro na garganta. Quando não entrava, voltávamos devagar, e minha mãe esperava com aquele cheiro que ensinou meu nariz a conjugar o verbo amar.

A casa também tinha janelas abertas para o mundo — e portas para dentro. Houve separação. Doeu. Mas o amor ficou de pé, cada um no seu terreno, dividindo o que importava. Não vi santos, vi gente. E foi libertador: amar não é prometer o impossível, é sustentar o que é verdadeiro.

Cresci entre livros, cadernos, panelas e pequenas proibições que miravam um grande sim: ser alguém que pensa, sente e escolhe. Se me deram o pão, também me deram a receita. Se me deram o conselho, me deram igualmente o risco. Se me pouparam de excessos, foi para que eu aprendesse o gosto das coisas simples — o sabor que não enjoa.

De vez em quando, abro a memória como quem abre o forno. O calor vem no rosto. Vejo minha mãe assando mais uma bandeja, vejo meu pai apagando com o dedo uma vírgula e reescrevendo a frase. Ouço farfalhar as páginas de um jornal sobre a mesa, o riso de amigos que não foram barrados, o barulho do portão num domingo de sol. E penso que, se o amor tem muitas formas, a da minha casa foi essa: uma mistura de firmeza e doçura, de limite e generosidade, de silêncio e palavra justa.

Fui criado por pais que me amaram — e que eram seres humanos. Não sabiam esconder, como tantos fazem, os próprios defeitos. Não faziam alarde dos seus atos. Construíram no silêncio. E o que construíram não era de vitrine: era como castelos sólidos erguidos na areia da vida, sabendo que o vento passa, mas que algo fica. Fica como matéria do que é o ser humano — erros e acertos, verdades e falhas. A vida acontecia assim, entre gritos e atos verdadeiros de amor, entre confissões de dificuldades e de insatisfações. Foram, talvez, ingênuos, como disse meu irmão.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Carnaval, Eleições e Cerveja

 

Carnaval no Brasil. E, neste ano, coincidência ou ironia, também ano eleitoral. Por aqui, aliás, tudo parece começar depois do Carnaval — inclusive as disputas pelo poder.

Resolvi descer e me sentar num restaurante de esquina. Mesas na calçada, calor úmido grudando na pele, confete pisado misturado à gordura do asfalto. Pedi uma cerveja bem gelada, dessas que chegam suadas por fora, e fiquei ali observando o movimento, como se eu realmente gostasse de Carnaval.

O garçom equilibrava pratos e serpentinas. Ao fundo, um bloco desafinado insistia numa marchinha antiga. Entre uma risada e outra, pude ouvir a conversa da mesa à minha direita.

— Minha querida, a primeira-dama é uma vergonha, dançando no carnaval e sem o marido.

— Terrível. Mas o pior foi a cor da roupa dela.

O tom era grave, quase institucional, como se discutissem a reforma tributária.

Virei levemente o rosto e alcancei a mesa à esquerda.

— Olha aqui esse vídeo.

— Muito engraçado. A ex-primeira-dama saindo com outro.

— Mas é IA.

— Olha só o cabelo dela, está horrível.

Risos. Mais cerveja. Mais julgamentos.

E ali, entre o cheiro de fritura e o som de tamborim, percebi que o ódio e a paixão já haviam contaminado as mentes — não como debate, mas como torcida organizada. Ainda nem havia campanha oficial, e já se discutia não o país, mas a vida privada de quem o representa.

A política, que deveria ser a arte de organizar o comum, havia se transformado numa espécie de reality show moral.

Agradeci em silêncio à cerveja gelada e comentei com um amigo que me acompanhava.

— Devíamos estar debatendo energia, educação, emprego.

— Cultura, ciência, segurança, saúde — ele completou.

— Pois é — respondi. — Mas estamos discutindo pessoas, não ideias.

E talvez aí esteja o cansaço.

Cheguei em casa com a sensação de que o barulho do bloco continuava dentro de mim. Era mais um ano em que famílias se dividiriam à mesa do almoço de domingo. Amizades seriam testadas por vídeos de trinta segundos. Grupos de mensagem se tornariam trincheiras.

Novos — e quase sempre irrelevantes — escândalos surgiriam como fogos de artifício: muito brilho, pouca luz. De escândalo em escândalo, a república cambalearia, como um bêbado descendo a ladeira, amparado não por convicções, mas por paixões.

Não que divergências sejam o problema. A democracia vive do conflito. O que a enfraquece é a superficialidade do conflito. Quando o debate se reduz à cor de uma roupa ou ao corte de um cabelo gerado por inteligência artificial, algo essencial se perde: a capacidade de pensar coletivamente.

Talvez este seja o verdadeiro cansaço da política: não o excesso de discussão, mas a ausência de profundidade. Não a divergência, mas a redução da vida pública ao espetáculo.

Enquanto o Carnaval segue seu curso — confetes ao vento, música alta, risos fáceis — o país, silenciosamente, continua precisando de escolhas difíceis. Escolhas que não cabem em memes, que não se resolvem em vídeos curtos, que não se explicam pela aparência de ninguém.

Às vezes me vem à memória aquela frase famosa, atribuída no imaginário popular ora a Nelson Rodrigues, ora a Tim Maia: “O Brasil é o único país onde a prostituta goza, o traficante é usuário e o corrupto é vítima.” Não é simples compreender este país. Mas, naquela tarde, a única certeza concreta era que a cerveja artesanal era de boa qualidade e servida na temperatura correta.

Terminei a noite com a impressão de que o Brasil dança, mas não escuta a própria música. E, no meio da folia e da espuma da cerveja, a política vai se tornando cada vez mais leve — leve demais para sustentar o peso de um país inteiro.



sexta-feira, 22 de agosto de 2025

O Amigo do Facebook

 



Beirando os cinquenta, Gabriel decidiu que era hora de procurar um amigo perdido. A decisão não nasceu de um lampejo heroico, mas de uma conversa despretensiosa numa noite de sexta-feira, quando o apartamento cheirava a manteiga derretida e o Cabernet deixava a língua ligeiramente adormecida. Na mesa, torradas, queijo Brie.

— Foi um grande amigo meu, o Diniz.

— Ele tinha apelido? — perguntou Sandra, num tom leve, como quem acende uma luz de abajur.

— Tinha. Ventania. Muito magro, parecia que podia sair voando a qualquer rajada de vento.

— Então procura ele no Facebook.

— Você acha que eu devo, Sandra?

Desde a adolescência não via o amigo. Ali, entre um gole e outro, as lembranças vieram como fitas VHS rebobinadas: imagens com chiados, mas inteiras no afeto. Gabriel e Diniz eram filhos dos anos 1970, adolescentes dos 80. Dois garotos que atravessavam a Tijuca de ônibus para chegar à escola, torcedores da seleção de 1982, que aprenderam a sonhar e sofrer com Zico, Sócrates e Falcão. Gabriel era vascaíno, devoto de Roberto Dinamite; Diniz, flamenguista convicto, falava do Zico como se fosse um deus particular. As provocações eram constantes, mas a amizade resistia a cada clássico.

Os dois colecionavam álbuns de figurinha, gostavam de chocolates Surpresa, disputavam Atari em tardes barulhentas. No quarto de Gabriel, um pôster da Playboy com Claudia Raia chamava a atenção entre livros mal empilhados e discos de vinil arranhados. A infância deles era feita de rua, de Mesbla aos sábados com os pais, de guaraná quente e pipoca em festas de aniversário. Nas rádios, Cazuza e o Barão Vermelho cantavam que “o tempo não para”, e essa trilha parecia embalar uma juventude inteira.

— Uma vez a gente marcou uma briga no colégio — disse Gabriel, sorrindo. — Diniz contra um menino bem maior do que ele.

— E aí? — Sandra apoiou o queixo na mão.

— Os dois se encararam, e o Ventania acertou um soco perfeito. O outro fazia karatê, mas Diniz era pura surpresa.

— E por que a amizade acabou? — perguntou Sandra.

— A Barra. A Barra da Tijuca acabou com a gente.

Vieram então as imagens do mar, não como lembrança, mas como retorno físico. O cheiro de maresia, o sal na boca. Um banco de areia traiçoeiro, a correnteza puxando, e Gabriel nadando com desespero, acreditando que morreria num sábado banal. Diniz, como sempre, avançava sem medo. Gabriel saiu irritado, cansado, envergonhado da própria fragilidade. Pegou um ônibus e nunca mais o procurou.

As décadas passaram. Vieram internet, celulares, reencontros virtuais. A geração deles — chave pendurada no pescoço, pôster de Claudia Raia na parede, tardes no Atari — agora se resumia a álbuns digitais. O Facebook parecia uma Mesbla da memória: prateleiras de fotos antigas, corredores de frases prontas.

No dia seguinte à conversa, Gabriel buscou o nome de Diniz. Encontrou perfis, fotos, pistas. Um amigo em comum confirmou: era ele. O Ventania, agora de cabelos ralos e óculos de grau, sorrindo contidamente em frente a uma estante. Gabriel escreveu uma longa mensagem: desculpas, lembranças, histórias mal resolvidas. Pediu amizade.

Uma semana depois, Sandra perguntou:

— E então? O Ventania respondeu?

Gabriel suspirou.

— Ele só aceitou a solicitação. Nenhuma palavra.

Ficaram em silêncio. O vento entrava pela janela, mexendo as cortinas. Gabriel pensou na seleção de 82, em Roberto Dinamite, em Zico, no pôster da Claudia Raia, nas tardes de Atari e nas músicas de Cazuza que embalavam aquela época. Pensou em como a vida era feita de correntes que levavam cada um para um lado. O tempo não para, repetia como um refrão.

Fechou o celular devagar. Talvez ainda escrevesse outra vez. Talvez não. O vento, afinal, continua soprando — e ninguém sabe para onde. Parece que uma ventania levou a amizade.

E pensou, por fim, que as amizades do Facebook nunca seriam como as amizades do mundo real. Porque lá, na escola, na rua, Gabriel e Diniz continuavam amigos.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

Pessoas comuns consumistas

Nós somos pessoas comuns. Vivemos em uma sociedade consumista, onde a escala de valor pessoal depende de “ter” bens e produtos. O que se tornou muito mais importante do que “ser” alguém, ter algum propósito na vida.

Em meio a uma competição frenética e sem um sentido profundo para suas próprias existências, as pessoas transformaram suas vidas em uma busca impossível e desgastante para se chegar ao ápice da escala social. O que significa parecer um rico.  Ou ao menos possuir o último modelo de celular, ostentar a roupa mais cara ou morar na maior casa.

Os comuns pensam que são diferentes e originais. Mas consomem o que o mercado quer. A variedade dos produtos confere essa falsa sensação.

 

Produtos e mais produtos de "beleza" são oferecidos. Na sociedade de consumo e propaganda,  a química destrói a saúde dos comuns.


Nessa sociedade uns descem, outros sobem. Mas, a maioria não chega a lugar algum. 

Vencidos pela sociedade de consumo muitos comuns descobriram o melhor lugar do Shopping. A exaustão da vida moderna, sem objetivos edificantes, os leva a dormir ou a se robotizarem por horas observando os celulares patéticos.


Nós andamos e vemos modelos de beleza irreais, corremos para a academia em vão. As pessoas alienadas transformaram a existência em algo superficial. Tudo é julgado pela aparência e o indivíduo se desqualifica por padrões impostos irreais e repletos de preconceitos.

Alguns comuns andam sem parar nos centros de consumo. Observam inúmeros produtos, os comuns não podem comprar a grande maioria dessas porcarias. Só nos resta olhar, andar, não pensar...



O amor tem cheiro de pão

  O amor tem cheiro de pão saindo do forno. Descobri que meus pais diziam “eu te amo” desse jeito: minha mãe, mexendo panelas; meu pai, ...