Beirando os cinquenta, Gabriel decidiu que era hora de procurar um amigo perdido. A decisão não nasceu de um lampejo heroico, mas de uma conversa despretensiosa numa noite de sexta-feira, quando o apartamento cheirava a manteiga derretida e o Cabernet deixava a língua ligeiramente adormecida. Na mesa, torradas, queijo Brie.
— Foi um grande amigo meu, o Diniz.
— Ele tinha apelido? — perguntou Sandra, num tom leve, como quem acende uma luz de abajur.
— Tinha. Ventania. Muito magro, parecia que podia sair voando a qualquer rajada de vento.
— Então procura ele no Facebook.
— Você acha que eu devo, Sandra?
Desde a adolescência não via o amigo. Ali, entre um gole e outro, as lembranças vieram como fitas VHS rebobinadas: imagens com chiados, mas inteiras no afeto. Gabriel e Diniz eram filhos dos anos 1970, adolescentes dos 80. Dois garotos que atravessavam a Tijuca de ônibus para chegar à escola, torcedores da seleção de 1982, que aprenderam a sonhar e sofrer com Zico, Sócrates e Falcão. Gabriel era vascaíno, devoto de Roberto Dinamite; Diniz, flamenguista convicto, falava do Zico como se fosse um deus particular. As provocações eram constantes, mas a amizade resistia a cada clássico.
Os dois colecionavam álbuns de figurinha, gostavam de chocolates Surpresa, disputavam Atari em tardes barulhentas. No quarto de Gabriel, um pôster da Playboy com Claudia Raia chamava a atenção entre livros mal empilhados e discos de vinil arranhados. A infância deles era feita de rua, de Mesbla aos sábados com os pais, de guaraná quente e pipoca em festas de aniversário. Nas rádios, Cazuza e o Barão Vermelho cantavam que “o tempo não para”, e essa trilha parecia embalar uma juventude inteira.
— Uma vez a gente marcou uma briga no colégio — disse Gabriel, sorrindo. — Diniz contra um menino bem maior do que ele.
— E aí? — Sandra apoiou o queixo na mão.
— Os dois se encararam, e o Ventania acertou um soco perfeito. O outro fazia karatê, mas Diniz era pura surpresa.
— E por que a amizade acabou? — perguntou Sandra.
— A Barra. A Barra da Tijuca acabou com a gente.
Vieram então as imagens do mar, não como lembrança, mas como retorno físico. O cheiro de maresia, o sal na boca. Um banco de areia traiçoeiro, a correnteza puxando, e Gabriel nadando com desespero, acreditando que morreria num sábado banal. Diniz, como sempre, avançava sem medo. Gabriel saiu irritado, cansado, envergonhado da própria fragilidade. Pegou um ônibus e nunca mais o procurou.
As décadas passaram. Vieram internet, celulares, reencontros virtuais. A geração deles — chave pendurada no pescoço, pôster de Claudia Raia na parede, tardes no Atari — agora se resumia a álbuns digitais. O Facebook parecia uma Mesbla da memória: prateleiras de fotos antigas, corredores de frases prontas.
No dia seguinte à conversa, Gabriel buscou o nome de Diniz. Encontrou perfis, fotos, pistas. Um amigo em comum confirmou: era ele. O Ventania, agora de cabelos ralos e óculos de grau, sorrindo contidamente em frente a uma estante. Gabriel escreveu uma longa mensagem: desculpas, lembranças, histórias mal resolvidas. Pediu amizade.
Uma semana depois, Sandra perguntou:
— E então? O Ventania respondeu?
Gabriel suspirou.
— Ele só aceitou a solicitação. Nenhuma palavra.
Ficaram em silêncio. O vento entrava pela janela, mexendo as cortinas. Gabriel pensou na seleção de 82, em Roberto Dinamite, em Zico, no pôster da Claudia Raia, nas tardes de Atari e nas músicas de Cazuza que embalavam aquela época. Pensou em como a vida era feita de correntes que levavam cada um para um lado. O tempo não para, repetia como um refrão.
Fechou o celular devagar. Talvez ainda escrevesse outra vez. Talvez não. O vento, afinal, continua soprando — e ninguém sabe para onde. Parece que uma ventania levou a amizade.
E pensou, por fim, que as amizades do Facebook nunca seriam como as amizades do mundo real. Porque lá, na escola, na rua, Gabriel e Diniz continuavam amigos.

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