terça-feira, 13 de junho de 2017

Henrique Simões


A vida é uma jornada, cercada de influências e histórias. Somos parte de um projeto, nunca o todo, o definitivo. Fazemos parte de uma jornada de milhares de anos, nossos ancestrais nos conduzem a esse rico Universo. Para darmos prosseguimento a nossa verdadeira caminhada é necessário se conhecer a história maior, o legado humano. É um olhar ao entorno, ao longo das eras e dos lugares. Só assim poderemos renascer, e enfim, descobrirmos que o momento presente é a nossa maior riqueza nessa vida.
Nossa busca prossegue resgatando a rica história de nossos antepassados. Nosso tio avô Henrique Simões nos conta sobre outra época, o início do século XX. Era um estilo de vida rural e fraterno. Ele fala muito a respeito do trabalho e também das festas, percebo um brilho no olhar dele quando fala das festas na sua juventude em Portugal. Mais do que saber sobre lugares ou datas investigamos os valores familiares que com certeza nos influenciaram.

Como era a casa em Portugal onde o senhor foi criado? O que faziam na propriedade rural? Era uma casa muito grande, tinha uma varanda comprida. Tínhamos muito trabalho, na lavoura cultivando milho, cereais, feijão, batatas e no cuidado com os animais (galinhas). Também fazíamos azeite. Primeiro apanhávamos as azeitonas, depois o azeite era armazenado em grandes potes. Ficava guardado para o ano todo, era bom, gostoso. Também coletávamos uvas e fazíamos vinho branco e tinto, mais para consumo pessoal, não vendíamos. Os vinhos ficavam fermentando nas pipas por uns quinze dias, cerca de 400l.

Quais irmãos conviveram mais com o senhor em Portugal? O Mendes, o Guilherme e o Adelino. Lembro-me do avô de vocês em Portugal, eu tinha oito anos quando ele foi para o Brasil. Eu saí de lá aos dezoito anos. O Manuel esteve primeiro aqui no Brasil, depois foi para a América.  O Antônio estava na África. Eram nove filhos, duas meninas, mas elas morreram. Os irmãos eram amigos. Tem que respeitar uns aos outros.
Como as crianças estudavam? Estudávamos com professora particular, íamos à casa deles. Era longe, cerca de uma hora a pé. Ficava lá duas, três horas estudando. Passava as lições para estudarmos em casa, contas, algo para ler. Seu avô fez antes de mim. Estudou muito, ele era inteligente. A gente trabalhava na lavoura, não tinha muito tempo para estudar. Trabalhava o dia todo. Acordava bem cedo, com o nascer do sol, e trabalhava até de noite.

 Como eram os seus pais?  Meu pai, Manuel Simões, era trabalhador, sempre na lavoura, cultivando milho, feijão, trigo, cevada e tremoços. Nosso pai era duro, tínhamos que trabalhar. A minha mãe, Maria de Jesus,  fazia comida para nós todos e às vezes vinha gente de fora, vinham trabalhar com a gente. Nós ajudávamos também, a descascar batatas, escolher o feijão, tinha que ajudar. 

Como vocês se divertiam em Portugal?  Nós íamos aos domingos, à noitinha, às festas para dançar, conversar e nos divertir. Ficava longe, demorava duas ou três horas, ia com os colegas.  Às vezes era perto, quando não tinha era longe. As festas começavam nove da noite e iam até de manhã. Algumas festas podiam durar dias, começavam no sábado e duravam até quarta-feira ou quinta-feira da outra semana. Íamos em casa dormir e voltávamos para a festa.
Deixamos algumas namoradas em Portugal. Eu não namorei tanto assim, vim para cá com dezoito anos. Mas o Mendes era namorador, ele gostava muito de dançar. Dançava tudo, o Vira. A dança do Vira era assim: quatro pessoas faziam uma roda, sapateia, passa para um lado, passa para o outro, levanta a mão. Nestas festas convidavam um músico, um sanfoneiro. Tinha guitarra, clarinete e sanfona.

           
Porque o Manuel, que foi o primeiro a vir para o Brasil, saiu de lá? Foi por algum motivo em especial?  Ele saiu de Portugal primeiro. O Brasil sempre teve fama de ser uma nação rica e boa. Era muito na paz. Um saiu e depois cada irmão foi levando o outro, sucessivamente. Gostaria de voltar a Portugal. Eu estive lá em 1967, com o meu irmão Guilherme. Tinha uma mata muito grande. A casa e o terreno ainda eram nossos. Só vendemos a casa há uns dez, quinze anos. 

Depois do Manuel qual foi o próximo irmão ao sair? Foi o Antônio. Veio para o Brasil, teve dois filhos aqui, depois foram viver em Lisboa. Os filhos dele se chamavam Iracema e Arlindo. Eles moraram em Angola, na África. Naquele tempo se falava em guerra. Ele foi chamado para a guerra. E foi para a África com dois filhos. O Antônio morreu na África. Depois os filhos dele foram para Portugal, com os meus pais, ficaram lá até hoje. Dessa casa foram para Lisboa. Depois do Antônio aí sim foi o José, o avô de vocês.

E como foi a sua vinda para o Brasil? A viagem de navio não é muito agradável não. Porque hoje os navios são maiores, mas naquele tempo o navio no mar oscilava muito. Tinha até uma corda para passar de um lado ao outro para não cair. O navio quando está no mar mesmo tem aqueles tombos muito grandes. Mas, ao mesmo tempo é agradável, tem piscina, tem tudo. A gente não ia à piscina, não sabia nadar. Mas tinha piscina. A noite tinha baile no navio. Os navios hoje em dia tem muito divertimento, tem até jogo, casino.

 Como foi sua vida no início aqui no Brasil? O meu tio Guilherme já era estabelecido em Santos. E fui trabalhar com ele. Aqui no Brasil, em Santos, na Praça da República, rua três. Foi o meu primeiro emprego aqui no Brasil. Quando eu vim de Santos para o Rio de Janeiro fui direto para a casa do seu Antônio Carvalho, seu bisavô. Seu avô já namorava com a sua avó. Eles namoraram muito tempo, uns anos. E logo tiveram um filho, o José Antônio. A casa do Carvalho era na Praça Onze, na Benedito Hipólito, no 60. Era uma região famosa nessa época por causa das festas. Cinelândia, a Lapa, muito Carnaval. A gente ia ao circo, ali na Praça Onze.

O senhor aqui no Rio foi trabalhar com o que?  Eu trabalhei na feira, eu gostava. E dava dinheiro. A minha barraca era de batata, principalmente batata. Naquele tempo não havia quase mercados. Todos os dias eram uns vinte ou trinta sacos de batata, de sessenta quilos cada. E no domingo vendia tudo. Chegava às quatro horas da manhã. O caminhão levava de noite, tinha muitos. De noite levantávamos às vezes meia noite, era longe. Tínhamos que chegar lá para conferir tudo, a mercadoria que estava chegando. E naquele tempo era bonde. A gente tinha que levantar e ir para o ponto do bonde para chegar à feira, que era longe. Eu já era casado. Eu já conhecia minha esposa de Portugal. Ela foi para Campinas, trabalhava como enfermeira na Beneficência Portuguesa. E naquele Hospital especialista em olhos. E a minha esposa era muito amiga da esposa do meu irmão Guilherme, a Elvira. Eram primas.

Que mensagem o senhor deixa para a nova geração dos Simões?  Vocês dois estão no caminho certo. Vocês não são "estragados", não tem vícios. A nova geração dos Simões, graças a Deus, tem estudo. Você, Joana, o Gustavo também, o José Antônio também. Graças a Deus a Fátima também. A carreira de vocês já está escrita.  Vocês tem que incentivar os seus filhos a estudarem. Aqui no Brasil quem não estudar e não for estudioso não vai ter futuro. Vocês podem ver a dificuldade que está para arrumar um emprego que seja bom. Muito difícil, então só o estudo pode acabar com isso. Quem puder trabalhar por sua conta. Ou ser um professor, médico, cientista, tudo que for bom. Não pode ficar parado. Vai passear um mês, de férias, depois volta. Tem que enfrentar. E não ser "estragado", gastador. Tem gente que gasta tudo que ganha e não olha o dia de amanhã. E é bom a gente sempre pensar no dia de amanhã. Graças a Deus vocês têm boas carreiras.

 

Carnaval, Eleições e Cerveja

  Carnaval no Brasil. E, neste ano, coincidência ou ironia, também ano eleitoral . Por aqui, aliás, tudo parece começar depois do Carnaval...