A vida é uma jornada, cercada
de influências e histórias. Somos parte de um projeto, nunca o todo, o
definitivo. Fazemos parte de uma jornada de milhares de anos, nossos ancestrais
nos conduzem a esse rico Universo. Para darmos prosseguimento a nossa
verdadeira caminhada é necessário se conhecer a história maior, o legado
humano. É um olhar ao entorno, ao longo das eras e dos lugares. Só assim
poderemos renascer, e enfim, descobrirmos que o momento presente é a nossa
maior riqueza nessa vida.
Nossa busca prossegue
resgatando a rica história de nossos antepassados. Nosso tio avô Henrique
Simões nos conta sobre outra época, o início do século XX. Era um estilo de
vida rural e fraterno. Ele fala muito a respeito do trabalho e também das
festas, percebo um brilho no olhar dele quando fala das festas na sua juventude
em Portugal. Mais do que saber sobre lugares ou datas investigamos os valores familiares
que com certeza nos influenciaram.
Como era a casa em Portugal onde o senhor foi criado? O que faziam na propriedade rural? Era uma casa muito grande, tinha uma varanda comprida. Tínhamos muito trabalho, na lavoura cultivando milho, cereais, feijão, batatas e no cuidado com os animais (galinhas). Também fazíamos azeite. Primeiro apanhávamos as azeitonas, depois o azeite era armazenado em grandes potes. Ficava guardado para o ano todo, era bom, gostoso. Também coletávamos uvas e fazíamos vinho branco e tinto, mais para consumo pessoal, não vendíamos. Os vinhos ficavam fermentando nas pipas por uns quinze dias, cerca de 400l.
Quais irmãos conviveram mais com o senhor em Portugal? O Mendes, o Guilherme e o Adelino. Lembro-me do avô de vocês em Portugal, eu tinha oito anos quando ele foi para o Brasil. Eu saí de lá aos dezoito anos. O Manuel esteve primeiro aqui no Brasil, depois foi para a América. O Antônio estava na África. Eram nove filhos, duas meninas, mas elas morreram. Os irmãos eram amigos. Tem que respeitar uns aos outros.
Como era a casa em Portugal onde o senhor foi criado? O que faziam na propriedade rural? Era uma casa muito grande, tinha uma varanda comprida. Tínhamos muito trabalho, na lavoura cultivando milho, cereais, feijão, batatas e no cuidado com os animais (galinhas). Também fazíamos azeite. Primeiro apanhávamos as azeitonas, depois o azeite era armazenado em grandes potes. Ficava guardado para o ano todo, era bom, gostoso. Também coletávamos uvas e fazíamos vinho branco e tinto, mais para consumo pessoal, não vendíamos. Os vinhos ficavam fermentando nas pipas por uns quinze dias, cerca de 400l.
Quais irmãos conviveram mais com o senhor em Portugal? O Mendes, o Guilherme e o Adelino. Lembro-me do avô de vocês em Portugal, eu tinha oito anos quando ele foi para o Brasil. Eu saí de lá aos dezoito anos. O Manuel esteve primeiro aqui no Brasil, depois foi para a América. O Antônio estava na África. Eram nove filhos, duas meninas, mas elas morreram. Os irmãos eram amigos. Tem que respeitar uns aos outros.
Como as crianças
estudavam? Estudávamos com professora
particular, íamos à casa deles. Era longe, cerca de uma hora a pé. Ficava lá
duas, três horas estudando. Passava as lições para estudarmos em casa, contas,
algo para ler. Seu avô fez antes de mim. Estudou muito, ele era inteligente. A
gente trabalhava na lavoura, não tinha muito tempo para estudar. Trabalhava o
dia todo. Acordava bem cedo, com o nascer do sol, e trabalhava até de noite.
Como eram os seus pais? Meu pai, Manuel Simões, era
trabalhador, sempre na lavoura, cultivando milho, feijão, trigo, cevada e tremoços.
Nosso pai era duro, tínhamos que trabalhar. A minha mãe, Maria de Jesus, fazia comida para nós todos e às vezes vinha
gente de fora, vinham trabalhar com a gente. Nós ajudávamos também, a descascar
batatas, escolher o feijão, tinha que ajudar.
Como vocês se divertiam em Portugal? Nós íamos aos domingos, à noitinha, às festas para dançar, conversar e nos divertir. Ficava longe, demorava duas ou três horas, ia com os colegas. Às vezes era perto, quando não tinha era longe. As festas começavam nove da noite e iam até de manhã. Algumas festas podiam durar dias, começavam no sábado e duravam até quarta-feira ou quinta-feira da outra semana. Íamos em casa dormir e voltávamos para a festa.
Deixamos algumas namoradas em
Portugal. Eu não namorei tanto assim, vim para cá com dezoito anos. Mas o Mendes
era namorador, ele gostava muito de dançar. Dançava tudo, o Vira. A dança do
Vira era assim: quatro pessoas faziam uma roda, sapateia, passa para um lado,
passa para o outro, levanta a mão. Nestas festas convidavam um músico, um
sanfoneiro. Tinha guitarra, clarinete e sanfona.
Porque o Manuel, que foi o primeiro a vir para o Brasil, saiu de lá? Foi por algum motivo em especial? Ele saiu de Portugal primeiro. O Brasil sempre teve fama de ser uma nação rica e boa. Era muito na paz. Um saiu e depois cada irmão foi levando o outro, sucessivamente. Gostaria de voltar a Portugal. Eu estive lá em 1967, com o meu irmão Guilherme. Tinha uma mata muito grande. A casa e o terreno ainda eram nossos. Só vendemos a casa há uns dez, quinze anos.
Depois do Manuel qual foi o próximo irmão ao sair? Foi o Antônio. Veio para o
Brasil, teve dois filhos aqui, depois foram viver em Lisboa. Os filhos dele se
chamavam Iracema e Arlindo. Eles moraram em Angola, na África. Naquele tempo se
falava em guerra. Ele foi chamado para a guerra. E foi para a África com dois
filhos. O Antônio morreu na África. Depois os filhos dele foram para Portugal,
com os meus pais, ficaram lá até hoje. Dessa casa foram para Lisboa. Depois do
Antônio aí sim foi o José, o avô de vocês.
E como foi a sua vinda para o Brasil? A viagem de navio não é muito
agradável não. Porque hoje os navios são maiores, mas naquele tempo o navio no
mar oscilava muito. Tinha até uma corda para passar de um lado ao outro para
não cair. O navio quando está no mar mesmo tem aqueles tombos muito grandes.
Mas, ao mesmo tempo é agradável, tem piscina, tem tudo. A gente não ia à
piscina, não sabia nadar. Mas tinha piscina. A noite tinha baile no navio. Os
navios hoje em dia tem muito divertimento, tem até jogo, casino.
Como foi sua vida no início
aqui no Brasil? O meu tio Guilherme já era
estabelecido em Santos. E fui trabalhar com ele. Aqui no Brasil, em Santos, na
Praça da República, rua três. Foi o meu primeiro emprego aqui no Brasil. Quando
eu vim de Santos para o Rio de Janeiro fui direto para a casa do seu Antônio
Carvalho, seu bisavô. Seu avô já namorava com a sua avó. Eles namoraram muito
tempo, uns anos. E logo tiveram um filho, o José Antônio. A casa do Carvalho era
na Praça Onze, na Benedito Hipólito, no 60. Era uma região
famosa nessa época por causa das festas. Cinelândia, a Lapa, muito Carnaval. A
gente ia ao circo, ali na Praça Onze.
O senhor aqui no Rio foi trabalhar com o que? Eu trabalhei na feira, eu
gostava. E dava dinheiro. A minha barraca era de batata, principalmente batata.
Naquele tempo não havia quase mercados. Todos os dias eram uns vinte ou trinta
sacos de batata, de sessenta quilos cada. E no domingo vendia tudo. Chegava às quatro
horas da manhã. O caminhão levava de noite, tinha muitos. De noite levantávamos
às vezes meia noite, era longe. Tínhamos que chegar lá para conferir tudo, a
mercadoria que estava chegando. E naquele tempo era bonde. A gente tinha que
levantar e ir para o ponto do bonde para chegar à feira, que era longe. Eu já
era casado. Eu já conhecia minha esposa de Portugal. Ela foi para Campinas,
trabalhava como enfermeira na Beneficência Portuguesa. E naquele Hospital especialista
em olhos. E a minha esposa era muito amiga da esposa do meu irmão Guilherme, a
Elvira. Eram primas.
Que mensagem o senhor deixa para a nova geração dos Simões? Vocês dois estão no caminho
certo. Vocês não são "estragados", não tem vícios. A nova geração dos Simões,
graças a Deus, tem estudo. Você, Joana, o Gustavo também, o José Antônio
também. Graças a Deus a Fátima também. A carreira de vocês já está
escrita. Vocês tem que incentivar os
seus filhos a estudarem. Aqui no Brasil quem não estudar e não for estudioso
não vai ter futuro. Vocês podem ver a dificuldade que está para arrumar um
emprego que seja bom. Muito difícil, então só o estudo pode acabar com isso.
Quem puder trabalhar por sua conta. Ou ser um professor, médico, cientista,
tudo que for bom. Não pode ficar parado. Vai passear um mês, de férias, depois
volta. Tem que enfrentar. E não ser "estragado", gastador. Tem gente que gasta
tudo que ganha e não olha o dia de amanhã. E é bom a gente sempre pensar no dia
de amanhã. Graças a Deus vocês
têm boas carreiras.
