sábado, 23 de dezembro de 2017

Beatles e Gilberto Gil

Gil cantando ao lado dos Mutantes - 1967.

Os artistas, ao longo das eras, criaram novas interpretações da realidade. É o que ocorre com a pintura, o cinema, o teatro e a música. O século XX foi singular, por diversos aspectos e acontecimentos ainda a serem compreendidos em sua totalidade: a revolução comunista, duas guerras mundiais, a polarização global entre duas superpotências, o novo papel da mulher na sociedade e o progresso tecnológico, enfim, o modo de vida foi profundamente modificado. E a arte, de forma geral, nos ajudou a compreender essas mudanças.

Na pintura, Pablo Picasso e Georges Braque, através do Cubismo, revitalizaram as tradições da arte ocidental. O Cubismo capta uma nova realidade, fragmentada, abstrata, indecifrável mas cheia de significados.

Quadro Guernica de Pablo Picasso
Inevitavelmente esse século nos aproximou e nos afastou, em vários aspectos. Passamos a ter um olhar mais universal, sem fronteira, sem bandeiras e hinos. A humanidade buscou novos caminhos, nunca o sentimento de coletividade, até mundial, foi tão marcante. Alguns artistas da música, através de suas profundas composições nos mostraram uma nova forma de enxergar a humanidade. Sempre tentando romper barreiras, o que reflete o que foi esse século.

O maior grupo musical da história, os Beatles, nos deixou um legado. Entre seus componentes, John Lennon e George Harrison, personificam dois aspectos fundamentais. Sãos os mais extremos, Lennon é um ativista revolucionário, e George um homem com uma marcante inquietude em busca do fenômeno religioso. Lennon, o político, e George, o religioso.


Capa do álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band
Em Imagine Lennon chega ao ápice do artista revolucionário, a frente do seu tempo, incompreendido por muitos, temido pelos Estados Unidos, que queria deportá-lo do país. 

Imagine there's no heaven
It's easy if you try
No hell below us
Above us only sky
Imagine all the people living for today



Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people living life in peace, you

 Ele constata a dificuldade que as religiões causam, ao dividirem o homem, com suas verdades absolutas e inconciliáveis. Mas, outro integrante dos Beatles, busca o que há de melhor no aspecto religioso. Ele quer encontrar a paz, procura conhecimento para um crescimento individual. George Harrison identifica-se com o Hinduísmo e pratica meditação transcendental, tendo sido muito influenciado pelo guru indiano Maharishi.

Ou seja, Lennon idealizou um mundo sem fronteiras, sem religiões, mas George achava que através de práticas religiosas indianas, poderia alcançar uma paz individual. E possivelmente imaginava um mundo onde todos se harmonizariam através deste tipo de caminho. Na música “My Sweet Lord” George traduz, através de uma bela música, toda essa jornada.

Meu doce Senhor
Hm, meu Senhor
Hm, meu Senhor

Eu realmente quero vê-lo
Realmente quero estar com Você
Realmente quero vê-lo, Senhor
Mas isto vai levar muito tempo

 Vários artistas no Brasil foram influenciados pelos Beatles. O festival da canção de 1967 foi o mais importante e depois de ouvir  Sgt. Peppers o compositor Gilberto Gil estava inspirado para realizar algo diferente.   A música “Domingo o Parque”, que ficou em segundo lugar neste festival, atrás de “Ponteio” de Edu Lobo, mostra essa influência.

A música apresenta o mesmo espírito universalista do álbum Sgt. Peppers. Mistura uma orquestra de música erudita com um baião e um som de um berimbau, além do acompanhamento de um conjunto de rock, “Os Mutantes”. Gil é um artista único na história da MPB. Teve um papel marcante no surgimento do Tropicalismo, que não se restringiu apenas à musica.

Gil é um artista multifacetado e universal. Sendo uma única pessoa, é como um conjunto, uma fusão de diversas personalidades. Ele é um ativista preocupado com as injustiças sociais, como Lenon, e é também religioso, como Harrison. Pode-se constatar essa diversidade através das letras de suas músicas. Na música “Procissão” Gil é completo, vai além dos Beatles. Mostra que tem fé, o que se observa de forma mais evidente em outras músicas, como “Seu eu quiser falar com Deus”, mas também observa a injustiça social na Terra.

Olha lá vai passando a procissão
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando acreditam nas coisas lá do céu
As mulheres cantando tiram versos, os homens escutando tiram o chapéu
Eles vivem penando aqui na Terra
Esperando o que Jesus prometeu
E Jesus prometeu coisa melhor
Prá quem vive nesse mundo sem amor

Gil nessa música mostra um lado mais Lennon, e na música “Seu eu quiser falar com Deus” é mais George Harrison.
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios


Esse é o Gil religioso, assim como Harrison. Mas espere, isso está errado, não é bem assim! Harrison se aprofunda no universo religioso indiano e Gil  busca o fenômeno religioso através das religiões africanas e católica. Portanto agora sim conseguimos diferenciá-los. Mas, alguém consegue observar uma diferença temática entre as músicas “My sweet Lord” e “Se eu quiser falar com Deus?”.

Ocorre que Lennon idealizou em Imagine um mundo sem fronteiras, sem religiões. Nesse lugar viveríamos em paz, sem diferenças. Há também um elemento universalizante em “Domingo no Parque”, uma construção global, juntando as partes. Esse é um antigo sonho da humanidade, a união e a integração. 

Vivemos infelizmente em um mundo profundamente dividido. Para caminharmos no sentido da integração, se é que se deseja isso, seria imperativo o surgimento de uma nova visão. Em muitos temas realmente as diferenças nos separam, cada vez mais, como em temas políticos. Mas, quando observamos o fenômeno religioso e constatamos as diversas religiões, com suas diversas abordagens, é necessário que haja um respeito pela fé do outro e da não fé, principalmente através da percepção de que a busca séria religiosa, e não institucional, poderosa, é uma busca individual, pura, pela paz, pelo encontro a sós com Deus, com a luz apagada. E é desta forma em todas as religiões.



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