quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

De onde vem todo esse Obscurantismo?

 Na Grécia Antiga filósofos como Sócrates, Aristóteles e Platão, entre tantos outros, iniciaram um movimento novo na história. Uma nova tendência, algo revolucionário. Até então todas as explicações sobre quase tudo era baseado no sobrenatural, no misticismo. Basicamente na construção de um mito. Essa construção foi importante no sentido de unificar a sociedade, principalmente a partir do surgimento das grandes cidades. O que se acredita coletivamente se torna uma identificação cultural.

De certa forma, nenhum problema nisto. Animais, até onde sabemos, como tigres e girafas, não tem religiões, não constroem uma narrativa que se torna “a verdade”. Isso é típico do comportamento humano. Nossa espécie constrói mitos e ao redor dele se estabelecem uma série de valores e paradigmas, que são considerados moralmente corretos. Nada que seja necessariamente estabelecido por um “código de ética”, mas se desde o nascimento certos valores e histórias são repetidamente contadas, esse conjunto de estruturas narrativas se confirmam como o código de conduta moral e pessoal.

Voltemos aos gregos socráticos, onde surge a Filosofia. Algo novo que tenta se utilizar de outras ferramentas cognitivas. Parte do princípio de que nada sabemos. E que é necessário raciocinar para se buscar a verdade. Logo, perguntas são formuladas e estas são, dentro do possível, respondidas. Com o passar dos séculos muito do que Aristóteles escreveu se mostrou errado. Mas, foi um dos primeiros homens a formular, por exemplo, um modelo do Universo baseado em seu pensamento e nas observações.

A grande questão, mais do que o conhecimento enciclopédico já todo estabelecido, é o paradigma da forma de pensar. A Filosofia abriu um novo caminho para o ser humano, permitiu o surgimento da Ciência, séculos depois. Grandes nomes, como Galileu Galilei, Isaac Newton e Charles Darwin transformaram a humanidade em uma outra civilização. Muitos se beneficiam das aplicações da Ciência, a Tecnologia, mas não se questionam sobre como se chegou a esse grau de Desenvolvimento. Se a Filosofia não tivesse surgido, muito provavelmente você não se comunicaria com grupos de pessoas através de um sofisticado e pequeno equipamento, o telefone celular.

Infelizmente, a maneira de pensar do ser humano, em média, não mudou. Tivemos momentos de vanguardismo, como o Iluminismo e as Revoluções, mas a grande maioria continua vivendo sob os paradigmas mentais pré-socráticos. E não da época dos Sofistas, mas sim, por exemplo, da Antiga civilização Egípcia. Hoje, apenas uma pequena elite intelectual, realmente consegue viver mais livre no sentido do pensamento. Mas, a grande massa humana, continua assombrada pelos Demônios.

É uma constatação da realidade. E cada grupo humano considera que a sua religião é melhor, pois somente ela representa “a verdade”. Mas, a grande Verdade é que somos absolutamente pequenos frente a esse gigantesco Universo. Giodarno Bruno foi condenado à morte na fogueira pela Inquisição por propor que as estrelas fossem sóis distantes cercados por seus próprios planetas. Ao observar um buraco negro ou uma galáxia pensamos que realmente nada somos. O que não significa que não consigamos dar sentido à vida, muito pelo contrário. Pois, acreditar em narrativas montadas pelo ser humano é que não vai nos trazer um sentido verdadeiro.

De onde vem todo esse obscurantismo? A negação da Ciência. O método científico começa com o levantamento de uma hipótese. E exige que diversos critérios sejam seguidos para que se torne válida, através de experimentos, de comprovações baseadas em dados. Todo o rigor do método científico permite que hipóteses sejam continuamente refutadas ou aceitas. Logo, a ciência não é estática, ela é mutável. Muitos que rejeitam a ciência se beneficiam no dia a dia de seus inúmeros progressos, como o uso de um simples antibiótico. Cada um de nós precisa agir como um cientista, sempre em busca da Verdade, questionando tudo e estando atendo aos dados da realidade, assim como fez o personagem de Sean Connery em “O Nome da Rosa”. Somente desta forma estaremos perto da Verdade.

Há muito o que construir na nossa sociedade, no sentido de permitir o debate mais filosófico nas escolas e na família. A princípio nenhum pensamento deveria ser proibido, desde que fosse livre do misticismo. Bem no estilo de racionalismo de René Descartes, “Penso, logo existo”. Mas que também permita o entendimento do Empirismo. Muito deve ser entendido, questionado, o exercício do livre pensar junto com observações da realidade podem dar um Verdadeiro significado à vida humana.

O cientista Marcelo Gleiser propõe uma definitiva conciliação entre a Razão e a Fé. Talvez como Santo Agostinho fez na Idade Média, ao introduzir textos de Platão dentro da temática religiosa. Tenho dúvidas que essa suposta integração seja possível. Em geral, esperam que os racionais abram um espaço para o pensamento místico, nunca o contrário. Pois, os que seguem dogmas e narrativas místicas dificilmente se permitem a leitura de livros questionadores ou até mesmo evitam assistir certos tipos de filmes. Então, essa ligação entre extremos deveria propor que os meios religiosos debatessem mais sobre ciência, literatura, arte e cultura. O que não se verifica.

Enquanto o homem não se libertar de fato de suas amarras mentais o obscurantismo continuará reinando, como sempre o fez na história humana. A Terra continuará plana para muitos e as vacinas continuarão inimigas. Enfim, cabe a cada um de nós essa transformação. É preciso se questionar sobre toda uma imposição cultural desde a infância, o que é difícil. E que nesse caminhar não deixemos de amar os irmãos que continuam acreditando nas superstições. O primeiro passo precisa ser estimulado. Afinal, o ser humano é capaz de pensar de forma racional e buscar a verdade através da comprovação científica. Isso torna um indivíduo livre.

 

 

Carnaval, Eleições e Cerveja

  Carnaval no Brasil. E, neste ano, coincidência ou ironia, também ano eleitoral . Por aqui, aliás, tudo parece começar depois do Carnaval...