Carnaval no Brasil. E, neste ano, coincidência ou ironia, também ano eleitoral. Por aqui, aliás, tudo parece começar depois do Carnaval — inclusive as disputas pelo poder.
Resolvi descer e me sentar num restaurante de esquina. Mesas na calçada, calor úmido grudando na pele, confete pisado misturado à gordura do asfalto. Pedi uma cerveja bem gelada, dessas que chegam suadas por fora, e fiquei ali observando o movimento, como se eu realmente gostasse de Carnaval.
O garçom equilibrava pratos e serpentinas. Ao fundo, um bloco desafinado insistia numa marchinha antiga. Entre uma risada e outra, pude ouvir a conversa da mesa à minha direita.
— Minha querida, a primeira-dama é uma vergonha, dançando no carnaval e sem o marido.
— Terrível. Mas o pior foi a cor da roupa dela.
O tom era grave, quase institucional, como se discutissem a reforma tributária.
Virei levemente o rosto e alcancei a mesa à esquerda.
— Olha aqui esse vídeo.
— Muito engraçado. A ex-primeira-dama saindo com outro.
— Mas é IA.
— Olha só o cabelo dela, está horrível.
Risos. Mais cerveja. Mais julgamentos.
E ali, entre o cheiro de fritura e o som de tamborim, percebi que o ódio e a paixão já haviam contaminado as mentes — não como debate, mas como torcida organizada. Ainda nem havia campanha oficial, e já se discutia não o país, mas a vida privada de quem o representa.
A política, que deveria ser a arte de organizar o comum, havia se transformado numa espécie de reality show moral.
Agradeci em silêncio à cerveja gelada e comentei com um amigo que me acompanhava.
— Devíamos estar debatendo energia, educação, emprego.
— Cultura, ciência, segurança, saúde — ele completou.
— Pois é — respondi. — Mas estamos discutindo pessoas, não ideias.
E talvez aí esteja o cansaço.
Cheguei em casa com a sensação de que o barulho do bloco continuava dentro de mim. Era mais um ano em que famílias se dividiriam à mesa do almoço de domingo. Amizades seriam testadas por vídeos de trinta segundos. Grupos de mensagem se tornariam trincheiras.
Novos — e quase sempre irrelevantes — escândalos surgiriam como fogos de artifício: muito brilho, pouca luz. De escândalo em escândalo, a república cambalearia, como um bêbado descendo a ladeira, amparado não por convicções, mas por paixões.
Não que divergências sejam o problema. A democracia vive do conflito. O que a enfraquece é a superficialidade do conflito. Quando o debate se reduz à cor de uma roupa ou ao corte de um cabelo gerado por inteligência artificial, algo essencial se perde: a capacidade de pensar coletivamente.
Talvez este seja o verdadeiro cansaço da política: não o excesso de discussão, mas a ausência de profundidade. Não a divergência, mas a redução da vida pública ao espetáculo.
Enquanto o Carnaval segue seu curso — confetes ao vento, música alta, risos fáceis — o país, silenciosamente, continua precisando de escolhas difíceis. Escolhas que não cabem em memes, que não se resolvem em vídeos curtos, que não se explicam pela aparência de ninguém.
Às vezes me vem à memória aquela frase famosa, atribuída no imaginário popular ora a Nelson Rodrigues, ora a Tim Maia: “O Brasil é o único país onde a prostituta goza, o traficante é usuário e o corrupto é vítima.” Não é simples compreender este país. Mas, naquela tarde, a única certeza concreta era que a cerveja artesanal era de boa qualidade e servida na temperatura correta.
Terminei a noite com a impressão de que o Brasil dança, mas não escuta a própria música. E, no meio da folia e da espuma da cerveja, a política vai se tornando cada vez mais leve — leve demais para sustentar o peso de um país inteiro.
