terça-feira, 23 de agosto de 2016

Clóvis: uma odisseia musical


Como alguém se torna um grande músico? Muitos falam de pessoas que já nasceram com um talento especial para a música. É notório o exemplo de Wolfgang Amadeus Mozart, que desde pequeno revelou extraordinária vocação musical. O prodígio, aos seis anos, realizou sua primeira turnê pela Europa e aos 12 anos criou sua primeira ópera, La finta semplice. Ou Beethoven, que mesmo surdo compôs extraordinárias obras musicais, como a Nona Sinfonia. Entretanto, ao conhecermos a história de grandes e geniais músicos, nas diferentes matizes da música, nota-se que além de um óbvio talento natural todos estudaram arduamente, ininterruptamente, lapidando o talento natural através de muito treino e dedicação. E, somente assim tornaram-se grandes músicos, como o saxofonista John Coltrane, que passava as madrugadas treinando.

Além de ter, em geral, um dom natural e de ter que perseguir a excelência através do estudo e do treinamento contínuo, o músico também deve interpretar a música de uma forma emotiva. Ele precisa se conectar com o campo sentimental sem perder por completo a razão e o controle. Realmente não é uma carreira fácil. No caso do clarinetista Clóvis Timóteo Guimarães, aposentado da Orquestra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, as características de um grande músico são evidentes. Ele tem uma mente extremamente ágil aos quase oitenta anos, capaz de causar inveja em muitos jovens. É uma pessoa que tem uma forma de pensar totalmente diferenciada da maioria. A música através das décadas forçou sua mente, exercitou seus neurônios e o conduziu a um Universo muito rico e transformador. Afinal de contas, como ele mesmo diz a música “abre a mente”. Ele fala isso finalizando suas observações e ensinamentos a respeito de acordes, melodias e escalas.

Na verdade, a sua própria trajetória mostra como foi gradativamente “abrindo a sua mente” para um novo mundo. Buscando sempre um crescimento dentro da música, Clóvis foi construindo uma carreira de sucesso como clarinetista. E essa história se inicia em 1939 quando nasce na cidade de São Bento do Una, interior de Pernambuco, terra de Alceu Valença. Ele cresceu em um ambiente rural, uma fazenda, tirando leite de vaca para produzir queijo em uma fábrica. Mas, logo sua mãe percebe que o menino tinha algo a mais. Ela o leva para Belo Jardim, cidade conhecida como “Terra dos Músicos”, do cantor e compositor Otto e dos maestros Vavá Vieira, Pachequinho e Ulisses Lima.
 

Posteriormente foi de trem para Caruaru, aos 11 anos, para a casa de uma irmã. Esta cidade exerce um importante papel centralizador cultural e turístico no interior pernambucano. Em 1955 foi tocar clarineta e saxofone em uma banda de músicos da cidade, também trabalha em um banco. Continuando com sua trajetória ganha uma bolsa para estudar música na Universidade Federal da Bahia, em 1960. Alia a sua formação um conhecimento mais acadêmico, em um departamento que segue a escola alemã. É colega de Universidade de Gilberto Gil. É uma época importante para a consolidação da identidade cultural do país, como mostra esse pequeno texto:


Nos festivais da canção, música de jovens compositores expressavam os sentimentos de protestos de toda uma geração. Nos Teatros Opinião, de Arena e Oficina, montavam-se shows e peças revolucionárias sobre a realidade do país. A rebeldia ganhava as artes plásticas, enquanto o Cinema Novo buscava uma nova linguagem para exprimir a identidade nacional. Seria, aliás, a criação de uma verdadeira cultura brasileira o objetivo principal do movimento que foi chamado de tropicalismo.

(Américo Freire, Marly Motta e Dora Rocha, História em curso: o Brasil e suas relações com o mundo ocidental)

Entra em contato com o marxismo, o que o leva a compreender as razões por trás da exploração de um povo tão sofrido. As ideias socialistas também passam a fazer parte da sua visão de mundo. Prossegue com seu ideal de mudança, de transformação, ao planejar a ida para o Rio de Janeiro, a capital cultural do país. Em 1964, Clóvis é aprovado em um concurso público, para a banda sinfônica do corpo de bombeiros do Rio de Janeiro, cargo de sargento e músico.  Essa banda, criada em 1896, é uma das mais atuantes organizações musicais militares do Brasil. Grandes nomes participaram de apresentações da banda, como os maestros Villa-Lobos, Isaac Karabtchevsky e Francisco Mignone. Enfim, muda-se para a “Cidade Maravilhosa”, terra do mar e também da música, de Noel Rosa, Cartola, Pixinguinha e Tom Jobim.

Continua inconformado, agora por não se identificar com o ambiente e a vida militar. Percebe que o elemento transformador é o conhecimento. Logo, volta a estudar na Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, localizada no bairro da Lapa, com especialização em Clarinete, aprofundando ainda mais o seu conhecimento musical. Nessa época ganha o concurso jovens solistas na TV Globo. Na Universidade havia um professor que tocava na Rádio MEC, perto do Campo de Santana, e que o convida para trabalhar nessa importante rádio especializada em música clássica que foi doada ao governo brasileiro em 1936 por Roquette Pinto, pai da radiodifusão brasileira, fundador da emissora em 1922.

Consolida-se como um importante instrumentista de sopro do cenário carioca dos anos 1960 e 1970. De manhã trabalha no quartel e a tarde na Rádio MEC. Algumas vezes também toca na Orquestra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro como convidado, o que desperta nele o desejo de participar desta Orquestra que é reconhecida internacionalmente por sua excelência. Após se formar na Escola de Música da UFRJ continua estudando com afinco. Em 1979, foi o primeiro colocado no Concurso Público da Orquestra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, cadeira de clarineta, requinta e clarone.

Colega de Paulo Moura o músico Clóvis lembra-se com orgulho dos anos em que fez parte desta renomada orquestra. Explica que trabalhava de 9:30h até às 13:30h, de segunda a sexta-feira. Entretanto, apesar das tardes livres havia frequentes espetáculos aos sábados e domingos. As férias eram de dois a três meses, período em que o Teatro Municipal fica fechado. Recorda que a orquestra era composta de noventa a cem profissionais e que era dividida em naipes. E que cada naipe tinha um chefe, o seu grupo era composto de 5 clarinetistas. Conta sobre a importância do maestro na orquestra e também da figura do spala, que é o primeiro violino. O spala podia chamar qualquer músico para uma conversa na “sala”, local reservado apenas aos músicos. Seus olhos enchem-se de lágrimas ao me contar sobre as viagens e apresentações internacionais e de que em algumas ocasiões fez um solo. Era um momento tenso, nem todos os músicos assumiam esse risco, e que quando os colegas gostavam de um solo eles “batiam palmas” com os pés, porque as mãos estavam ocupadas segurando os instrumentos. Ele me explica as diferenças entre os 3 corpos artísticos do teatro municipal: orquestra, coro e balé.

Em 2010, aos setenta anos, Clóvis se aposenta da Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal. Desde então o clarinetista e saxofonista é integrante da Orquestra Tabajara e também se dedica a passar todo o conhecimento acumulado ao longo de sua vida profissional a alguns alunos. Passou a se dedicar mais a outros estilos, principalmente ao Jazz.

Ao longo de sua carreira, Clóvis tocou ao lado de grandes nomes da música mundial, como Roberto Carlos, Simone, Simonal, Tim Maia, Nelson Gonçalves, Andrea Bocelli, Plácido Domingo, José Carreras e Luciano Pavarotti.

 A seguir podemos ver nestes dois vídeos uma pequena demonstração do talento deste grande músico. 

https://www.youtube.com/watch?v=jSlDjOK1Dqc

 

 

 

 

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