Como alguém
se torna um grande músico? Muitos falam de pessoas que já nasceram com um
talento especial para a música. É notório o exemplo de Wolfgang Amadeus Mozart,
que desde pequeno revelou extraordinária vocação musical. O prodígio, aos seis
anos, realizou sua primeira turnê pela Europa e aos 12 anos criou sua primeira ópera,
La finta semplice. Ou Beethoven, que
mesmo surdo compôs extraordinárias obras musicais, como a Nona Sinfonia. Entretanto, ao conhecermos a história de grandes e
geniais músicos, nas diferentes matizes da música, nota-se que além de um óbvio
talento natural todos estudaram arduamente, ininterruptamente, lapidando o talento
natural através de muito treino e dedicação. E, somente assim tornaram-se
grandes músicos, como o saxofonista John Coltrane, que passava as madrugadas
treinando.
Além de ter,
em geral, um dom natural e de ter que perseguir a excelência através do estudo
e do treinamento contínuo, o músico também deve interpretar a música de uma
forma emotiva. Ele precisa se conectar com o campo sentimental sem perder por
completo a razão e o controle. Realmente não é uma carreira fácil. No caso do clarinetista
Clóvis Timóteo Guimarães, aposentado da Orquestra do Teatro Municipal do Rio de
Janeiro, as características de um grande músico são evidentes. Ele tem uma
mente extremamente ágil aos quase oitenta anos, capaz de causar inveja em
muitos jovens. É uma pessoa que tem uma forma de pensar totalmente diferenciada
da maioria. A música através das décadas forçou sua mente, exercitou seus
neurônios e o conduziu a um Universo muito rico e transformador. Afinal de
contas, como ele mesmo diz a música “abre a mente”. Ele fala isso finalizando
suas observações e ensinamentos a respeito de acordes, melodias e escalas.
Na verdade, a
sua própria trajetória mostra como foi gradativamente “abrindo a sua mente” para um novo mundo. Buscando sempre um crescimento dentro da música, Clóvis foi
construindo uma carreira de sucesso como clarinetista. E essa história se
inicia em 1939 quando nasce na cidade de São Bento do Una, interior de
Pernambuco, terra de Alceu Valença. Ele cresceu em um ambiente rural, uma
fazenda, tirando leite de vaca para produzir queijo em uma fábrica. Mas, logo
sua mãe percebe que o menino tinha algo a mais. Ela o leva para Belo Jardim,
cidade conhecida como “Terra dos Músicos”, do cantor e compositor Otto e dos
maestros Vavá Vieira, Pachequinho e Ulisses Lima.
Posteriormente
foi de trem para Caruaru, aos 11 anos, para a casa de uma irmã. Esta cidade
exerce um importante papel centralizador cultural e turístico no interior
pernambucano. Em 1955 foi tocar clarineta e saxofone em uma banda de músicos da
cidade, também trabalha em um banco. Continuando com sua trajetória ganha uma
bolsa para estudar música na Universidade Federal da Bahia, em 1960. Alia a sua
formação um conhecimento mais acadêmico, em um departamento que segue a escola
alemã. É colega de Universidade de Gilberto Gil. É uma época importante para a
consolidação da identidade cultural do país, como mostra esse pequeno texto:
Nos festivais da canção, música de jovens compositores expressavam os
sentimentos de protestos de toda uma geração. Nos Teatros Opinião, de Arena e
Oficina, montavam-se shows e peças revolucionárias sobre a realidade do país. A
rebeldia ganhava as artes plásticas, enquanto o Cinema Novo buscava uma nova
linguagem para exprimir a identidade nacional. Seria, aliás, a criação de uma
verdadeira cultura brasileira o objetivo principal do movimento que foi chamado
de tropicalismo.
(Américo Freire, Marly Motta e
Dora Rocha, História em curso: o Brasil e suas relações com o mundo ocidental)
Entra em
contato com o marxismo, o que o leva a compreender as razões por trás da
exploração de um povo tão sofrido. As ideias socialistas também passam a fazer
parte da sua visão de mundo. Prossegue com seu ideal de mudança, de
transformação, ao planejar a ida para o Rio de Janeiro, a capital cultural do
país. Em 1964, Clóvis é aprovado em um concurso público, para a banda sinfônica
do corpo de bombeiros do Rio de Janeiro, cargo de sargento e músico. Essa banda, criada em 1896, é uma das mais
atuantes organizações musicais militares do Brasil. Grandes nomes participaram
de apresentações da banda, como os maestros Villa-Lobos, Isaac Karabtchevsky e
Francisco Mignone. Enfim, muda-se para a “Cidade Maravilhosa”, terra do mar e
também da música, de Noel Rosa, Cartola, Pixinguinha e Tom Jobim.
Continua
inconformado, agora por não se identificar com o ambiente e a vida militar.
Percebe que o elemento transformador é o conhecimento. Logo, volta a estudar na
Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, localizada no
bairro da Lapa, com especialização em Clarinete, aprofundando ainda mais o seu
conhecimento musical. Nessa época ganha o concurso jovens solistas na TV Globo.
Na Universidade havia um professor que tocava na Rádio MEC, perto do Campo de
Santana, e que o convida para trabalhar nessa importante rádio especializada em
música clássica que foi doada ao governo brasileiro em 1936 por Roquette Pinto,
pai da radiodifusão brasileira, fundador da emissora em 1922.
Consolida-se
como um importante instrumentista de sopro do cenário carioca dos anos 1960 e
1970. De manhã trabalha no quartel e a tarde na Rádio MEC. Algumas vezes também
toca na Orquestra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro como convidado, o que
desperta nele o desejo de participar desta Orquestra que é reconhecida internacionalmente
por sua excelência. Após se formar na Escola de Música da UFRJ continua
estudando com afinco. Em 1979, foi o primeiro colocado no Concurso Público da Orquestra
do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, cadeira de clarineta, requinta e clarone.
Colega de
Paulo Moura o músico Clóvis lembra-se com orgulho dos anos em que fez parte
desta renomada orquestra. Explica que trabalhava de 9:30h até às 13:30h, de
segunda a sexta-feira. Entretanto, apesar das tardes livres havia frequentes
espetáculos aos sábados e domingos. As férias eram de dois a três meses,
período em que o Teatro Municipal fica fechado. Recorda que a orquestra era
composta de noventa a cem profissionais e que era dividida em naipes. E que
cada naipe tinha um chefe, o seu grupo era composto de 5 clarinetistas. Conta
sobre a importância do maestro na orquestra e também da figura do spala, que é
o primeiro violino. O spala podia chamar qualquer músico para uma conversa na
“sala”, local reservado apenas aos músicos. Seus olhos enchem-se de lágrimas ao
me contar sobre as viagens e apresentações internacionais e de que em algumas
ocasiões fez um solo. Era um momento tenso, nem todos os músicos assumiam esse
risco, e que quando os colegas gostavam de um solo eles “batiam palmas” com os
pés, porque as mãos estavam ocupadas segurando os instrumentos. Ele me explica
as diferenças entre os 3 corpos artísticos do teatro municipal: orquestra, coro
e balé.
Em 2010, aos
setenta anos, Clóvis se aposenta da Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal.
Desde então o clarinetista e saxofonista é integrante da Orquestra Tabajara e
também se dedica a passar todo o conhecimento acumulado ao longo de sua vida
profissional a alguns alunos. Passou a se dedicar mais a outros estilos,
principalmente ao Jazz.
Ao longo de
sua carreira, Clóvis tocou ao lado de grandes nomes da música mundial, como
Roberto Carlos, Simone, Simonal, Tim Maia, Nelson Gonçalves, Andrea Bocelli,
Plácido Domingo, José Carreras e Luciano Pavarotti.
A seguir podemos ver nestes dois vídeos uma pequena demonstração do talento deste grande músico.
https://www.youtube.com/watch?v=jSlDjOK1Dqc
A seguir podemos ver nestes dois vídeos uma pequena demonstração do talento deste grande músico.
https://www.youtube.com/watch?v=jSlDjOK1Dqc


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