Frequento a confeitaria mais
antiga da cidade do Rio de Janeiro, a casa Cavé, há muitos anos. Certa vez o
garçom Waldir Ramos, que trabalha lá há mais de 40 anos, me contou sua
história. Fui ouvindo e aprendendo, percebi que a história pessoal dele se
conectava a da confeitaria Cavé. Sempre sorridente e com uma fala tranquila
explicava as seis décadas dedicadas a profissão de garçom. Percebo que ele tem
orgulho do que faz. Principalmente por ter feito o seu melhor, apesar de nem
sempre ter sido reconhecido. Guarda diversas histórias de pessoas ilustres que
atendeu, mostrando uma mistura de admiração e orgulho por ter de certa forma
participado da vida dos famosos.
Mas ao perguntar qual era o seu
cliente ilustre preferido ele não hesita em afirmar que foi Carlos Drummond de
Andrade. Percebo que a admiração pelo poeta é especial.
Afinal, naquela época, quando não havia internet e celular, os livros eram ainda
mais valorizados. E, para quem aprecia a arte, Drummond representava o homem
das letras, que falava das emoções. Era um cidadão ilustre e reconhecido em
vida por sua original e brilhante obra. E não havia motivo para não o admirar. Por
isso o título dessa reportagem ser “O garçom do Drummond”. O poeta pode ter tido
outros garçons. Mas tenho certeza que nenhum deles teve tanto orgulho em atendê-lo
da melhor forma possível como o Waldir da Cavé.
A infância em Três Rios.
Nascido em Três Rios, Waldir chegou à capital em 1968 e diz que não
pensa em voltar para lá.
— Nasci em Paraíba do Sul, no dia
05/04/1938, e fui criado em Três Rios. A minha infância foi sempre trabalhando,
desde novo. Ajudava na lavoura, o que colhia levava para a feira. Depois com o
tempo meu pai largou a lavoura e comprou um Botequim. E trabalhei com ele nesse
botequim. E depois um armazém, e eu o ajudava, e já tinha aquela habilidade
para lidar com o público.
Depois veio o quartel.
Essa profissão, que exerce há 62 anos, ele abraçou bem antes, quando
atingiu a maioridade e se alistou no Exército. Os militares perceberam que o
soldado Ramos poderia se dar bem com as bandejas e o recrutaram para servir os
oficiais.
— No exército, como eu tinha
aquela habilidade de lidar com o cliente, me aproveitaram no Cassino dos
oficiais. E então eu aprendi a profissão ali. Então eu dei baixa e vim
trabalhar em Ipanema.
Depois do Exército vai trabalhar
em Ipanema no restaurante Bali Hai
Quando deixou o Exército, Waldir
foi dar expediente no extinto restaurante Bali Hai, em Ipanema. Lá, recebia
clientes ilustres, como os comediantes Costinha, Trindade e Grande Otelo.
— Em Ipanema eu não tinha onde me hospedar e
dormia no serviço, abria a casa e fechava. Em uma galeria, em frente à Praça
Nossa Senhora da Paz. Eu trabalhei uns dois anos. Então ali eu trabalhava de
manhã até na hora de dormir. A última sessão do cinema, em frente a galeria.
Então ali era trabalhar, comer, dormir. Viajava uma vez por semana para lavar a
roupa e namorar, não é?
— Já nessa época eu tive o
privilégio de atender pessoas ilustres. Quando eu trabalhei em Ipanema então lá
perto tinha a TV Rio. Lá eu conheci o Costinha, Grande Otelo, aquela turma toda
frequentava lá. O que Costinha era no palco era também batendo papo com a
gente. Costinha sempre contava as piadas dele e ele era supersimpático. Já o
Trindade era meio seco. O Grande Otelo também. Grande Otelo não era de muita conversa. Uma
vez servi o refrigerante antes de a comida ficar pronta e ele me deu uma
bronca. E aí a Mariazinha comprou a casa lá e eu vim trabalhar na leiteria Bol,
Avenida Mem de Sá, região da Lapa.
Leiteria Bol, na rua Gonçalves
Dias
— Aí vim trabalhar na Bol. Ali eu
tive o privilégio de atender o Gama Filho. Então ele tinha uma mesa cativa logo
no centro. Usava roupa branca, então ele chegava lá às onze horas e aquela mesa
ficava fechada para ele até meio dia, uma hora era exclusiva dele, na leiteria
Bol, na Gonçalves Dias. Eu trabalhei uns sete anos. E aí acabou a Bol e eu
entrei na Cavé. E na Cavé já estou com quarenta e dois anos. E completei
oitenta e dois de idade e quarenta de Cavé.
Após uma temporada na leiteria
Bol, no Centro, Waldir passou a exibir sua gravata-borboleta na Cavé. Na
confeitaria portuguesa, o convívio com clientes famosos não parou. Ele recebeu
o dramaturgo Nelson Rodrigues e o poeta Carlos Drummond de Andrade
Confeitaria Cavé
A Casa Cavé, ou simplesmente
Cavé, localizada no Centro do Rio de Janeiro, é a confeitaria mais
antiga da cidade. Fundada por Auguste Charles Felix Cavé em 1860. O prédio tombado na esquina da Rua Sete de setembro
com Uruguaiana, guarda parte da história do Rio e dos cariocas. O
salão foi frequentado por nomes como D. Pedro II, Chiquinha Gonzaga, Tarsila do
Amaral, Olavo Bilac, Juscelino Kubitschek, Nelson Rodrigues e Carlos Drummond. Entre
os 60 tipos de doces lá fabricados, os mais vendidos estão no cardápio desde a
abertura da casa: o pastel de nata (ou de Belém), típica delícia portuguesa, e
o mil-folhas, de origem francesa.
— Antigamente, as pessoas vinham
com tempo, ficavam conversando, tomando chá e comendo doces, com calma e
tranquilidade. Hoje, é tudo mais frenético, os clientes mal acabam de comer já
estão pedindo a conta. Mas, mesmo nesse ritmo, conseguimos servir com atenção e
conquistar a clientela.
Histórias da Cavé
— Entrei na Cavé em 1977 ou 1978.
E aqui na Cavé eu tive o privilégio de atender Carlos Drummond, Nelson
Rodrigues, Falabella, Lulu Santos, essa turma toda. Nelson Rodrigues era uma
figura histórica aqui no Rio de Janeiro. Quando eu era novo lia muito as
crônicas dele. Fluminense apaixonado. Então eu acompanhava muito as crônicas
dele. Era um grande dramaturgo. Quando ele vinha aqui já estava meio baleado,
trêmulo.
— Já o Drummond era muito mais
sociável, tranquilo, calmo. Ia muito com a irmã dele. Nelson vinha sozinho,
sentava-se sempre na mesma mesa e pedia sorvete de abacaxi. Não dava
intimidade. Drummond era mais humilde e sociável. Vinha com a irmã, comia
torrada americana e tomava chocolate quente.
Sem querer, Drummond acabou dando
a Waldir uma lembrança que ele guardou por anos com muito carinho.
— Um dia, ele esqueceu o
guarda-chuva ao lado da mesa. Era preto, compridão, com cabo de louça. Guardei
por um tempo, mas ele não voltou para buscar, aí levei para casa — conta o
garçom, que não tem mais a peça. — Meu garoto, sem querer, destruiu. Saiu à
noite e voltou com o guarda-chuva arrebentado. Fiquei triste, era uma relíquia.
Na lista de fregueses famosos,
estão também Dercy Gonçalves, Regina Casé e Miguel Falabella. O ator e escritor
sempre tomava o sorvete Dina Teresa (em homenagem à vedete e fadista portuguesa
falecida em 1984), de creme, chantilly e fios de ovos.
A mulher tinha ciúme do marido,
que nunca economizou nos sorrisos e até hoje é paquerado por freguesas:
— Outro dia, perguntei a uma
senhora se ela ia querer a torrada Petrópolis com mel. Ela disse: “Não. De mel
já basta você”. Eu respondi: “A recíproca é verdadeira”. Mas ficou só na
simpatia.
— Certa vez, uma moça fez uma
despesa, foi a o banheiro e se mandou. Depois de um tempo voltou e eu a
reconheci. Disse que tinha que pagar adiantado e ela foi embora.
— Quem vinha muito aqui era a
Regina Casé. A Betty Faria também, fiz muito serviço de festa na casa dela. Ali
em Ipanema, lembro do aniversário da filha dela de 11 anos. Ela era casada com
o Cláudio Marzo.
E o que o senhor gosta de fazer no tempo livre?
— Antigamente jogava as minhas
peladas ali no Aterro. Mas como o joelho começou a falhar eu só dou as minhas
caminhadas e vou levando a vida assim.
Se o senhor não trabalhasse como garçom o que o senhor faria?
— Teria sido jogador de futebol. Mas
não deu. Eu operei o joelho logo com 23 anos e aí já desanimei. Mas depois
ainda joguei as minhas peladas.
— Além de trabalhar na profissão,
fiz muito serviço em casa de madame até comprar o meu apê. Trabalhando no final
de semana.
— Eu já tenho muita história para
contar ao meu neto. É um legado que eu quero deixar para ele. Eu nunca fui
mandado embora. Tudo aquilo que se faz por amor tem a recompensa, estando
bem-intencionado.
Qual o prato da Cavé que o senhor mais gosta?
Os doces geralmente. A massa com
creme de chantili e Morango. O que mais saí é o Pastel de Belém. Quem come diz
que é idêntico ao de Portugal. Lá é Pastel de Nata, aqui é Belém. Mas é a mesma
coisa.
O senhor quer deixar uma mensagem?
A minha mensagem é o seguinte.
Tudo que fizer faça bem feito. Depois que o fizer e ninguém agradeceu, o
importante é que fez tudo bem feito. Ter consciência que fez o que deveria ser
feito.


