terça-feira, 16 de julho de 2019

O SIMPÁTICO GARÇOM DO DRUMMOND

 
Frequento a confeitaria mais antiga da cidade do Rio de Janeiro, a casa Cavé, há muitos anos. Certa vez o garçom Waldir Ramos, que trabalha lá há mais de 40 anos, me contou sua história. Fui ouvindo e aprendendo, percebi que a história pessoal dele se conectava a da confeitaria Cavé. Sempre sorridente e com uma fala tranquila explicava as seis décadas dedicadas a profissão de garçom. Percebo que ele tem orgulho do que faz. Principalmente por ter feito o seu melhor, apesar de nem sempre ter sido reconhecido. Guarda diversas histórias de pessoas ilustres que atendeu, mostrando uma mistura de admiração e orgulho por ter de certa forma participado da vida dos famosos.
Mas ao perguntar qual era o seu cliente ilustre preferido ele não hesita em afirmar que foi Carlos Drummond de Andrade.   Percebo que a admiração pelo poeta é especial. Afinal, naquela época, quando não havia internet e celular, os livros eram ainda mais valorizados. E, para quem aprecia a arte, Drummond representava o homem das letras, que falava das emoções. Era um cidadão ilustre e reconhecido em vida por sua original e brilhante obra. E não havia motivo para não o admirar. Por isso o título dessa reportagem ser “O garçom do Drummond”. O poeta pode ter tido outros garçons. Mas tenho certeza que nenhum deles teve tanto orgulho em atendê-lo da melhor forma possível como o Waldir da Cavé.

A infância em Três Rios.
Nascido em Três Rios, Waldir chegou à capital em 1968 e diz que não pensa em voltar para lá.
— Nasci em Paraíba do Sul, no dia 05/04/1938, e fui criado em Três Rios. A minha infância foi sempre trabalhando, desde novo. Ajudava na lavoura, o que colhia levava para a feira. Depois com o tempo meu pai largou a lavoura e comprou um Botequim. E trabalhei com ele nesse botequim. E depois um armazém, e eu o ajudava, e já tinha aquela habilidade para lidar com o público.
Depois veio o quartel.
Essa profissão, que exerce há 62 anos, ele abraçou bem antes, quando atingiu a maioridade e se alistou no Exército. Os militares perceberam que o soldado Ramos poderia se dar bem com as bandejas e o recrutaram para servir os oficiais.
— No exército, como eu tinha aquela habilidade de lidar com o cliente, me aproveitaram no Cassino dos oficiais. E então eu aprendi a profissão ali. Então eu dei baixa e vim trabalhar em Ipanema.
Depois do Exército vai trabalhar em Ipanema no restaurante Bali Hai
Quando deixou o Exército, Waldir foi dar expediente no extinto restaurante Bali Hai, em Ipanema. Lá, recebia clientes ilustres, como os comediantes Costinha, Trindade e Grande Otelo.
 — Em Ipanema eu não tinha onde me hospedar e dormia no serviço, abria a casa e fechava. Em uma galeria, em frente à Praça Nossa Senhora da Paz. Eu trabalhei uns dois anos. Então ali eu trabalhava de manhã até na hora de dormir. A última sessão do cinema, em frente a galeria. Então ali era trabalhar, comer, dormir. Viajava uma vez por semana para lavar a roupa e namorar, não é?
— Já nessa época eu tive o privilégio de atender pessoas ilustres. Quando eu trabalhei em Ipanema então lá perto tinha a TV Rio. Lá eu conheci o Costinha, Grande Otelo, aquela turma toda frequentava lá. O que Costinha era no palco era também batendo papo com a gente. Costinha sempre contava as piadas dele e ele era supersimpático. Já o Trindade era meio seco. O Grande Otelo também.  Grande Otelo não era de muita conversa. Uma vez servi o refrigerante antes de a comida ficar pronta e ele me deu uma bronca. E aí a Mariazinha comprou a casa lá e eu vim trabalhar na leiteria Bol, Avenida Mem de Sá, região da Lapa.
Leiteria Bol, na rua Gonçalves Dias
— Aí vim trabalhar na Bol. Ali eu tive o privilégio de atender o Gama Filho. Então ele tinha uma mesa cativa logo no centro. Usava roupa branca, então ele chegava lá às onze horas e aquela mesa ficava fechada para ele até meio dia, uma hora era exclusiva dele, na leiteria Bol, na Gonçalves Dias. Eu trabalhei uns sete anos. E aí acabou a Bol e eu entrei na Cavé. E na Cavé já estou com quarenta e dois anos. E completei oitenta e dois de idade e quarenta de Cavé.
Após uma temporada na leiteria Bol, no Centro, Waldir passou a exibir sua gravata-borboleta na Cavé. Na confeitaria portuguesa, o convívio com clientes famosos não parou. Ele recebeu o dramaturgo Nelson Rodrigues e o poeta Carlos Drummond de Andrade
Confeitaria Cavé
A Casa Cavé, ou simplesmente Cavé, localizada no Centro do Rio de Janeiro, é a confeitaria mais antiga da cidade. Fundada por Auguste Charles Felix Cavé em 1860.  O prédio tombado na esquina da Rua Sete de setembro com Uruguaiana, guarda parte da história do Rio e dos cariocas. O salão foi frequentado por nomes como D. Pedro II, Chiquinha Gonzaga, Tarsila do Amaral, Olavo Bilac, Juscelino Kubitschek, Nelson Rodrigues e Carlos Drummond. Entre os 60 tipos de doces lá fabricados, os mais vendidos estão no cardápio desde a abertura da casa: o pastel de nata (ou de Belém), típica delícia portuguesa, e o mil-folhas, de origem francesa.
— Antigamente, as pessoas vinham com tempo, ficavam conversando, tomando chá e comendo doces, com calma e tranquilidade. Hoje, é tudo mais frenético, os clientes mal acabam de comer já estão pedindo a conta. Mas, mesmo nesse ritmo, conseguimos servir com atenção e conquistar a clientela.
Histórias da Cavé
— Entrei na Cavé em 1977 ou 1978. E aqui na Cavé eu tive o privilégio de atender Carlos Drummond, Nelson Rodrigues, Falabella, Lulu Santos, essa turma toda. Nelson Rodrigues era uma figura histórica aqui no Rio de Janeiro. Quando eu era novo lia muito as crônicas dele. Fluminense apaixonado. Então eu acompanhava muito as crônicas dele. Era um grande dramaturgo. Quando ele vinha aqui já estava meio baleado, trêmulo.
— Já o Drummond era muito mais sociável, tranquilo, calmo. Ia muito com a irmã dele. Nelson vinha sozinho, sentava-se sempre na mesma mesa e pedia sorvete de abacaxi. Não dava intimidade. Drummond era mais humilde e sociável. Vinha com a irmã, comia torrada americana e tomava chocolate quente.
Sem querer, Drummond acabou dando a Waldir uma lembrança que ele guardou por anos com muito carinho.
— Um dia, ele esqueceu o guarda-chuva ao lado da mesa. Era preto, compridão, com cabo de louça. Guardei por um tempo, mas ele não voltou para buscar, aí levei para casa — conta o garçom, que não tem mais a peça. — Meu garoto, sem querer, destruiu. Saiu à noite e voltou com o guarda-chuva arrebentado. Fiquei triste, era uma relíquia.
Na lista de fregueses famosos, estão também Dercy Gonçalves, Regina Casé e Miguel Falabella. O ator e escritor sempre tomava o sorvete Dina Teresa (em homenagem à vedete e fadista portuguesa falecida em 1984), de creme, chantilly e fios de ovos.
A mulher tinha ciúme do marido, que nunca economizou nos sorrisos e até hoje é paquerado por freguesas:
— Outro dia, perguntei a uma senhora se ela ia querer a torrada Petrópolis com mel. Ela disse: “Não. De mel já basta você”. Eu respondi: “A recíproca é verdadeira”. Mas ficou só na simpatia.
— Certa vez, uma moça fez uma despesa, foi a o banheiro e se mandou. Depois de um tempo voltou e eu a reconheci. Disse que tinha que pagar adiantado e ela foi embora.
— Quem vinha muito aqui era a Regina Casé. A Betty Faria também, fiz muito serviço de festa na casa dela. Ali em Ipanema, lembro do aniversário da filha dela de 11 anos. Ela era casada com o Cláudio Marzo.
E o que o senhor gosta de fazer no tempo livre?
— Antigamente jogava as minhas peladas ali no Aterro. Mas como o joelho começou a falhar eu só dou as minhas caminhadas e vou levando a vida assim.
Se o senhor não trabalhasse como garçom o que o senhor faria?
— Teria sido jogador de futebol. Mas não deu. Eu operei o joelho logo com 23 anos e aí já desanimei. Mas depois ainda joguei as minhas peladas.
— Além de trabalhar na profissão, fiz muito serviço em casa de madame até comprar o meu apê. Trabalhando no final de semana.
— Eu já tenho muita história para contar ao meu neto. É um legado que eu quero deixar para ele. Eu nunca fui mandado embora. Tudo aquilo que se faz por amor tem a recompensa, estando bem-intencionado.
Qual o prato da Cavé que o senhor mais gosta?
Os doces geralmente. A massa com creme de chantili e Morango. O que mais saí é o Pastel de Belém. Quem come diz que é idêntico ao de Portugal. Lá é Pastel de Nata, aqui é Belém. Mas é a mesma coisa.
O senhor quer deixar uma mensagem?
A minha mensagem é o seguinte. Tudo que fizer faça bem feito. Depois que o fizer e ninguém agradeceu, o importante é que fez tudo bem feito. Ter consciência que fez o que deveria ser feito.














  

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