sexta-feira, 20 de março de 2026

Carnaval, Eleições e Cerveja

 

Carnaval no Brasil. E, neste ano, coincidência ou ironia, também ano eleitoral. Por aqui, aliás, tudo parece começar depois do Carnaval — inclusive as disputas pelo poder.

Resolvi descer e me sentar num restaurante de esquina. Mesas na calçada, calor úmido grudando na pele, confete pisado misturado à gordura do asfalto. Pedi uma cerveja bem gelada, dessas que chegam suadas por fora, e fiquei ali observando o movimento, como se eu realmente gostasse de Carnaval.

O garçom equilibrava pratos e serpentinas. Ao fundo, um bloco desafinado insistia numa marchinha antiga. Entre uma risada e outra, pude ouvir a conversa da mesa à minha direita.

— Minha querida, a primeira-dama é uma vergonha, dançando no carnaval e sem o marido.

— Terrível. Mas o pior foi a cor da roupa dela.

O tom era grave, quase institucional, como se discutissem a reforma tributária.

Virei levemente o rosto e alcancei a mesa à esquerda.

— Olha aqui esse vídeo.

— Muito engraçado. A ex-primeira-dama saindo com outro.

— Mas é IA.

— Olha só o cabelo dela, está horrível.

Risos. Mais cerveja. Mais julgamentos.

E ali, entre o cheiro de fritura e o som de tamborim, percebi que o ódio e a paixão já haviam contaminado as mentes — não como debate, mas como torcida organizada. Ainda nem havia campanha oficial, e já se discutia não o país, mas a vida privada de quem o representa.

A política, que deveria ser a arte de organizar o comum, havia se transformado numa espécie de reality show moral.

Agradeci em silêncio à cerveja gelada e comentei com um amigo que me acompanhava.

— Devíamos estar debatendo energia, educação, emprego.

— Cultura, ciência, segurança, saúde — ele completou.

— Pois é — respondi. — Mas estamos discutindo pessoas, não ideias.

E talvez aí esteja o cansaço.

Cheguei em casa com a sensação de que o barulho do bloco continuava dentro de mim. Era mais um ano em que famílias se dividiriam à mesa do almoço de domingo. Amizades seriam testadas por vídeos de trinta segundos. Grupos de mensagem se tornariam trincheiras.

Novos — e quase sempre irrelevantes — escândalos surgiriam como fogos de artifício: muito brilho, pouca luz. De escândalo em escândalo, a república cambalearia, como um bêbado descendo a ladeira, amparado não por convicções, mas por paixões.

Não que divergências sejam o problema. A democracia vive do conflito. O que a enfraquece é a superficialidade do conflito. Quando o debate se reduz à cor de uma roupa ou ao corte de um cabelo gerado por inteligência artificial, algo essencial se perde: a capacidade de pensar coletivamente.

Talvez este seja o verdadeiro cansaço da política: não o excesso de discussão, mas a ausência de profundidade. Não a divergência, mas a redução da vida pública ao espetáculo.

Enquanto o Carnaval segue seu curso — confetes ao vento, música alta, risos fáceis — o país, silenciosamente, continua precisando de escolhas difíceis. Escolhas que não cabem em memes, que não se resolvem em vídeos curtos, que não se explicam pela aparência de ninguém.

Às vezes me vem à memória aquela frase famosa, atribuída no imaginário popular ora a Nelson Rodrigues, ora a Tim Maia: “O Brasil é o único país onde a prostituta goza, o traficante é usuário e o corrupto é vítima.” Não é simples compreender este país. Mas, naquela tarde, a única certeza concreta era que a cerveja artesanal era de boa qualidade e servida na temperatura correta.

Terminei a noite com a impressão de que o Brasil dança, mas não escuta a própria música. E, no meio da folia e da espuma da cerveja, a política vai se tornando cada vez mais leve — leve demais para sustentar o peso de um país inteiro.


sexta-feira, 22 de agosto de 2025

O Amigo do Facebook

 



Beirando os cinquenta, Gabriel decidiu que era hora de procurar um amigo perdido. A decisão não nasceu de um lampejo heroico, mas de uma conversa despretensiosa numa noite de sexta-feira, quando o apartamento cheirava a manteiga derretida e o Cabernet deixava a língua ligeiramente adormecida. Na mesa, torradas, queijo Brie.

— Foi um grande amigo meu, o Diniz.

— Ele tinha apelido? — perguntou Sandra, num tom leve, como quem acende uma luz de abajur.

— Tinha. Ventania. Muito magro, parecia que podia sair voando a qualquer rajada de vento.

— Então procura ele no Facebook.

— Você acha que eu devo, Sandra?

Desde a adolescência não via o amigo. Ali, entre um gole e outro, as lembranças vieram como fitas VHS rebobinadas: imagens com chiados, mas inteiras no afeto. Gabriel e Diniz eram filhos dos anos 1970, adolescentes dos 80. Dois garotos que atravessavam a Tijuca de ônibus para chegar à escola, torcedores da seleção de 1982, que aprenderam a sonhar e sofrer com Zico, Sócrates e Falcão. Gabriel era vascaíno, devoto de Roberto Dinamite; Diniz, flamenguista convicto, falava do Zico como se fosse um deus particular. As provocações eram constantes, mas a amizade resistia a cada clássico.

Os dois colecionavam álbuns de figurinha, gostavam de chocolates Surpresa, disputavam Atari em tardes barulhentas. No quarto de Gabriel, um pôster da Playboy com Claudia Raia chamava a atenção entre livros mal empilhados e discos de vinil arranhados. A infância deles era feita de rua, de Mesbla aos sábados com os pais, de guaraná quente e pipoca em festas de aniversário. Nas rádios, Cazuza e o Barão Vermelho cantavam que “o tempo não para”, e essa trilha parecia embalar uma juventude inteira.

— Uma vez a gente marcou uma briga no colégio — disse Gabriel, sorrindo. — Diniz contra um menino bem maior do que ele.

— E aí? — Sandra apoiou o queixo na mão.

— Os dois se encararam, e o Ventania acertou um soco perfeito. O outro fazia karatê, mas Diniz era pura surpresa.

— E por que a amizade acabou? — perguntou Sandra.

— A Barra. A Barra da Tijuca acabou com a gente.

Vieram então as imagens do mar, não como lembrança, mas como retorno físico. O cheiro de maresia, o sal na boca. Um banco de areia traiçoeiro, a correnteza puxando, e Gabriel nadando com desespero, acreditando que morreria num sábado banal. Diniz, como sempre, avançava sem medo. Gabriel saiu irritado, cansado, envergonhado da própria fragilidade. Pegou um ônibus e nunca mais o procurou.

As décadas passaram. Vieram internet, celulares, reencontros virtuais. A geração deles — chave pendurada no pescoço, pôster de Claudia Raia na parede, tardes no Atari — agora se resumia a álbuns digitais. O Facebook parecia uma Mesbla da memória: prateleiras de fotos antigas, corredores de frases prontas.

No dia seguinte à conversa, Gabriel buscou o nome de Diniz. Encontrou perfis, fotos, pistas. Um amigo em comum confirmou: era ele. O Ventania, agora de cabelos ralos e óculos de grau, sorrindo contidamente em frente a uma estante. Gabriel escreveu uma longa mensagem: desculpas, lembranças, histórias mal resolvidas. Pediu amizade.

Uma semana depois, Sandra perguntou:

— E então? O Ventania respondeu?

Gabriel suspirou.

— Ele só aceitou a solicitação. Nenhuma palavra.

Ficaram em silêncio. O vento entrava pela janela, mexendo as cortinas. Gabriel pensou na seleção de 82, em Roberto Dinamite, em Zico, no pôster da Claudia Raia, nas tardes de Atari e nas músicas de Cazuza que embalavam aquela época. Pensou em como a vida era feita de correntes que levavam cada um para um lado. O tempo não para, repetia como um refrão.

Fechou o celular devagar. Talvez ainda escrevesse outra vez. Talvez não. O vento, afinal, continua soprando — e ninguém sabe para onde. Parece que uma ventania levou a amizade.

E pensou, por fim, que as amizades do Facebook nunca seriam como as amizades do mundo real. Porque lá, na escola, na rua, Gabriel e Diniz continuavam amigos.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

Pessoas comuns consumistas

Nós somos pessoas comuns. Vivemos em uma sociedade consumista, onde a escala de valor pessoal depende de “ter” bens e produtos. O que se tornou muito mais importante do que “ser” alguém, ter algum propósito na vida.

Em meio a uma competição frenética e sem um sentido profundo para suas próprias existências, as pessoas transformaram suas vidas em uma busca impossível e desgastante para se chegar ao ápice da escala social. O que significa parecer um rico.  Ou ao menos possuir o último modelo de celular, ostentar a roupa mais cara ou morar na maior casa.

Os comuns pensam que são diferentes e originais. Mas consomem o que o mercado quer. A variedade dos produtos confere essa falsa sensação.

 

Produtos e mais produtos de "beleza" são oferecidos. Na sociedade de consumo e propaganda,  a química destrói a saúde dos comuns.


Nessa sociedade uns descem, outros sobem. Mas, a maioria não chega a lugar algum. 

Vencidos pela sociedade de consumo muitos comuns descobriram o melhor lugar do Shopping. A exaustão da vida moderna, sem objetivos edificantes, os leva a dormir ou a se robotizarem por horas observando os celulares patéticos.


Nós andamos e vemos modelos de beleza irreais, corremos para a academia em vão. As pessoas alienadas transformaram a existência em algo superficial. Tudo é julgado pela aparência e o indivíduo se desqualifica por padrões impostos irreais e repletos de preconceitos.

Alguns comuns andam sem parar nos centros de consumo. Observam inúmeros produtos, os comuns não podem comprar a grande maioria dessas porcarias. Só nos resta olhar, andar, não pensar...



quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Dirce Cortinhas




O pão de minuto, o biscoito de goiaba... Ah! Encantavam as minhas tardes vazias. Você fazia gracinhas sem graça. Nunca deixou passar um dia sem falar com teus filhos. Não te cansou de abrir caminho para teu ex-marido e seus dois filhos. Minha mãe foi como as agulhas de costura que abrem caminho para as linhas.

Contou dias e traças, olhou a Lua e estrelas. E aos poucos que chegassem dizia: Bom dia! Oh! Que beleza! Você não se alimentou de egoísmo, inveja e malefícios. Minha mãe foi péssima em marketing. Fez o que ninguém soube. Não terminou o segundo grau, abandonou o normal, que cursava brilhantemente, para mais uma vez cuidar da casa.

Aos domingos preparava pratos deliciosos, lembro de peixes assados, enormes, bem saborosos. Fazia camarão catupiry, bacalhau, bolos...

Foste bonita, a mais bonita e encantaste teu Batman por décadas. Seu pai, simpático e pouco prudente, te amou profundamente. Para ele sempre foste uma menina que cabia a ele somente a proteção e o amor. E até o teu Batman, com sua capa importante de guerreiro pode ainda te amar profundamente, mas na penumbra da noite, nos teus devaneios sonhos. Ele poderia até em seu último suspiro lembrar de você como uma menina de dezesseis anos, caminhando, indo embora, para sempre...

Você foi uma grande mãe. Cuidou, zelou, era a PM (Polícia Militar) do prédio, pois ficava sempre preocupada com o bem-estar de seus filhos. Uma vez, a que lembro, podem ter tido outras, salvaste a minha vida. Brincando, com cerca de 11 anos, fui me enrolando na grossa cortina do quarto dos meus pais. Chegou um momento que me vi preso, não tinha como sair, comecei a gritar. Fui ficando roxo, sem ar, desesperado. Passou um tempo e depois no meio daquele desespero percebo que você estava desenrolando a cortina.

A sociedade cobra um largo sorriso, uma simpatia admirável. Mas para que isso serve? O ser humano sofre sim, e nem sempre conseguiste evitar essa lamúria mal resolvida. Foste tripudiada pela vida, cansou...

O tempo passou e os filhos da Robin mulher se tornaram homens e viveram, erraram. E de forma surpreendente o nosso herói esquecido, o nosso macunaíma estava lá. Com seu sorriso e as piadas sem graça, que tantas vezes eu ri descontroladamente. "Olha sua tia ali. Olha um mini (homem pequeno)"; E recarregamos nossas baterias após ficarmos sem rumo e você estava la, sempre disponível. Para uma conversa, um café ou uma pizza. Isso era a prova do amor de mãe, mas de uma mãe capaz de se doar. 

No geral você foi como o velho pescador de “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway. Lutou, passou por tempestades colossais, tubarões te morderam, ficaste sem forças. Com o tempo segurou firme a espinha de um enorme tubarão, era o que tinha pescado. Quando foi mostrar a todos ele caiu no mar e ninguém mais acreditou.

Esse enorme peixe, que te machucara também sofreu, ficou contigo agonizando, quase morreu. Ele escapou para sempre. Desesperada tentou de tudo. Colocou Vieira em seu nome, trocou a roupa, arrumou a casa, de nada adiantou.

Mas, em nossos corações digo que não precisas mostrar nenhum peixe. Nós somos testemunhas de toda sua história. Todos nós erramos, somos seres sem endereço procurando o caminho de casa. E qual é a casa? Abusada e tripudiada pela vida. Não perdeu o encanto em seu canto. A casa sempre arrumada. Aos domingos sobrava a solidão. No Natal sofria de recordações. Como uma princesa abandonada teu choro já não era mais ouvido.

Mas, como um soldado resistente ficava de pé. A cada penoso dia permaneces de pé, firme, sobrevivendo sozinha. És forte demais, és como um samurai guerreiro milenar. Tua espada, escondida em algum lugar, te protege. Não te sobras nada, é como o vento. E, firme, entre um programa evangélico e uma palestra do Villa, resiste. Essa tua resiliência é um ensinamento. Quando o vento forte bate enverga bastante, mas não quebra.

Nunca será possível deixar de notar todo aquele desperdício. Porque Dona Dirce não era um ser humano banal. Deixava um colorido muito especial marcado nos nossos corações.

Você me diria para, se puder, não te esquecer num canto qualquer, como na letra de Toquinho. Nunca, jamais...



quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Os jovens Manuel, Antônio e José

Ao mesmo tempo em que brigava com os filhos, Manuel Simões escondia um sorriso, era um pai muito amoroso. Manuel e sua esposa Maria de Jesus viviam uma vida simples e feliz em uma aldeia em Coimbra, Portugal. Os filhos mais velhos já estavam ficando homens. E Manuel tinha um plano para eles, fascinava-se por essa ideia. Manuel tinha vinte e dois anos, Antônio era dois anos mais novo do que Manuel e José, o mais novo, tinha dezoito anos. Comendo um pernil assado com batatas e repolho, o homem olhava pela janela, o seu olhar era distante, parecia, enfim, que o seu sonho estava próximo de se concretizar. As árvores eram lindas naquela época do ano em Portugal. - Mulher me passa o vinho. - Está aqui, meu senhor. - Está bom mulher. Tu és uma boa mulher. Falas pouco, trabalhas muito, é assim que tem que ser, ouviram rapazes? Não vão se casar com a primeira rapariga que aparecer. Casamento é coisa séria. Boa mulher é como esta, a mãe de vocês. Bebendo o vinho e olhando ao longe, via muito além da montanha toda coberta de verde. Via a sua vontade de mudar, de transformar o mundo. Não mais através de si mesmo, pois já era um homem velho, com quarenta anos. Seus filhos iriam conquistar o mundo. - Vocês têm pouco estudo, a situação aqui não vai mudar, nós somos pobres. Nós trabalhamos em plantações de verduras e de frutas. - Esse mundo está muito difícil. Muitas guerras, fome. É melhor vocês irem embora. Vai ter que ser assim. Nosso povo sempre emigrou para longe, e vivemos a hora certa para fazer isto. Vamos buscando uma vida melhor. Um dia Dom João VI fugiu de Portugal, Napoleão quase o pegou. Mas, foi o melhor que ele podia fazer, foi um rei inteligente. Eu e a mãe de vocês estamos velhos, não temos condições de sair daqui. Os rapazes ouviam aquela história desde pequenos. Sabiam que um dia isso iria acontecer. Foi o que os vizinhos fizeram, era o que todos faziam. Iam embora, buscavam uma vida melhor em outro país, em outro continente. Mas, Antônio não queria ir. - Eu não vou. - Tu vais menino. Está tudo certo. Aqui na aldeia conhecemos as pessoas certas. Eu já estive no Brasil, quase fiquei por lá. Tenho um amigo lá, um de vocês vai para a casa dele, o nome dele é Antônio Carvalho. Também tenho conhecidos nos Estados Unidos e na África, em Angola. - Cada um de vocês vai para um lugar diferente. Quero espalhar meus filhos pelo mundo. Cada um vai para um país diferente. Manuel, tu já estás um homem, você vai para os Estados Unidos da América. José, você vai para o Brasil e tu, meu pequeno Antônio, vai para a África. Este é o meu sonho, é assim que vai ser. Os mais novos, Guilherme, Henrique, Adelino e Mendes irão depois também. Os anos se passaram, os meninos continuaram crescendo, fortes e saudáveis. As oportunidades de prosperar na aldeia não eram muitas. Entretanto, a vida no interior os fascinava. Não foram para a escola. Um professor ia à casa das pessoas, ensinava alguma coisa. O suficiente para aprenderam a ler e escrever, mesmo que de forma limitada. Aquele era o mundo deles, com as lendas e tradições. Respeitavam muito seus pais, eram católicos, iam sempre à missa e acreditavam no valor do trabalho. Uma das lendas dizia que o sétimo filho de um casal se transformaria em lobisomem nas noites de lua cheia. Havia várias outras lendas, que tinham uma origem pouco conhecida, surgiram da antiga tradição oral. Os adultos contavam para as crianças e essas histórias se perpetuavam, talvez tenham surgido na Idade Média ou até antes, afinal, Portugal, como Reino, foi estabelecido em 1139 – e, antes disto, houve a dominação pelo Império Romano, a presença germânica, celta, visigoda, moura, dentre outras. Algumas histórias falavam de guerreiros, de batalhas e de antigos reis. Muitas histórias surgiram do imaginário do povo. Falavam de espíritos que percorriam as florestas. E que ninguém poderia estar na floresta quando um espírito desses passasse. Na dúvida todos preferiam acreditar nessas histórias, na tradição oral. Juntavam tudo isso com a antiga cultura portuguesa. Com o respeito aos pais, que eram chamados de senhores. E, principalmente, com os costumes e valores da tradição católica portuguesa. Não era uma época ou lugar para se questionar os valores. Isso ocorreria muitos anos depois. A mulher tinha um papel social bem definido. Deviam respeitar os seus maridos, também os chamavam de senhor. Mas, na prática, o poder delas era grande, no seio familiar. Valorizavam muito os cuidados com a saúde, era assim que sempre começavam a escrever uma carta, perguntando pela saúde. Era o mais importante da vida, cuidar da saúde. O homem vivia, em média, trinta e cinco anos. Em Portugal, naquela época, uma doença um pouco mais complicada poderia levar um jovem à morte. Viver ou morrer? Toda semana alguém morria na aldeia. Era sexta-feira, naquela noite os rapazes iriam para uma festa um pouco afastada da aldeia. Eles iam a pé, arrumados e esperançosos de encontrar o amor. Cada um dos irmãos tinha uma personalidade diferente. Manuel era o mais sedutor, era um galanteador, e já acumulava algumas namoradas. Dançava muito bem e era muito extrovertido. José era o oposto de Manuel, em quase tudo. Era um pouco mais baixo e forte. Era um rapaz muito sério e dedicado ao trabalho, não gostava de dançar e pensava em encontrar uma mulher para se casar. Se não encontrasse esse amor em Portugal, então teria que procurar no Brasil a sua esposa. Antônio sempre ficava perto dos irmãos, era muito tímido. Mas, com o tempo podia fazer boas amizades e era uma pessoa muito boa. - Vamos dançar com aquelas meninas, José? - Eu não as conheço, são da Aldeia da Passagem? - E o que importa? Elas são bonitas, isso é o mais importante. Olha o que vai perder, só digo isso porque tu és meu irmão e até o Antônio podia dançar com aquela pequena ali, a morena. - É sério? Então seria bom para o nosso menino Antônio. Bom, vamos lá. Ao ouvir isso, o coração de Antônio disparou. Ele até achou as meninas bonitas, já estava nervoso, quase tremendo. José não gostava de galantear qualquer moça, gostava de encontros com grupos conhecidos, dentro de certas regras. Era um homem previsível e não gostava de qualquer situação fora do esperado. Mas, não era tímido como Antônio. Apenas era muito conservador e introvertido. Mas era um homem bom, tinha um grande coração. Ao ver a possibilidade de ajudar o irmão a superar a timidez encarou a situação como uma missão, aí se transformava em um Leão. Depois de alguns segundos de caminhada pelo salão os irmãos se aproximaram das belas meninas. - Como estão as mais belas meninas da festa? Manuel lançava todo o seu charme e falava mais com o corpo do que com as palavras, e sempre sorrindo fazia gestos alongados. José e Antônio mantinham-se rígidos, como as amendoeiras da aldeia. As três meninas sorriram, todas acharam Manuel bonito, mas uma delas, a mais bela, uma moça de Lisboa que visitava a Aldeia para conhecer a irmã de sua mãe, encantara-se por José. Ela era uma moça de dezesseis anos, loira e de grandes olhos verdes. Passaram-se alguns segundos e os olhos de José e Lídia se encontraram. Naquele instante, José sentiu-se fisgado por aqueles lindos olhos. O que era aquilo? Nunca tinha visto um rosto tão bonito em toda a sua vida. Manuel percebeu a situação e foi dançar com a menina mais alta do grupo. José ficou paralisado, com as sobrancelhas levantadas. Esforçou-se para convidar a moça para a dança. - Você, quer dizer, a senhorita gostaria de dançar? - Sim, eu aceito. Antônio nem chegou a convidar a outra moça, não tinha essa coragem, apenas segurou a mão da menina e foram andando em direção ao centro do salão. A estratégia deu certo, e logo os dois estavam dançando animados e felizes. Logo Lídia percebeu que José não sabia dançar. Mas, em pouco tempo a bela e a fera começaram a dançar de verdade. A emoção fizera com que José se soltasse, o vinho também ajudou bastante. Depois de algum tempo, os irmãos e seus pares se sentaram em uma mesa para conversar e se conhecerem melhor. Manuel não gostou da moça com quem dançou, apesar de ser uma bela menina eles não se entrosaram e, na verdade, ele começou a perceber a presença de Lídia. Ela era uma mulher diferente, vestia-se com uma roupa da cidade. Parecia ser uma menina rica, o que se confirmou quando eles conversaram. Manuel então se interessou muito pela moça, mas Lídia só tinha olhos para José. - Você é aqui da aldeia? Parece que não. - Eu não sou de aldeia, meus pais moram em Lisboa, na capital. - E o que o seu pai faz? - Ele é médico. - E vocês vieram conhecer a vida no interior? - Na verdade não. A minha tia, irmã da minha mãe está muito doente, viemos visitá-la e o meu pai também veio para ver o que pode fazer por ela. Mas, o caso dela é muito grave. A maneira de falar dela era diferente. Era uma moça que pertencia a outro mundo. Todos na aldeia eram praticamente analfabetos. Apenas na cidade, naquela época, os filhos das famílias ricas podiam se tornar doutores. José nem sabia mais o que conversar com aquela moça tão sofisticada. Mas, o olhar dela lhe transmitia confiança e assim, depois dele oferecer a ela uns bolinhos de bacalhau e uma taça de vinho, eles conversavam já com certa intimidade. O que ela viu nele? José não tinha muita cultura, mas havia algo nele que impressionava a moça. Ele tinha uma postura máscula, certa altivez de caráter, difícil de encontrar na cidade um homem assim, pensava Lídia. Ele era um homem que não tinha medo, era corajoso e destemido. Se lhe fosse permitido estudar era provável que se tornasse um grande doutor. Em pouco tempo Lídia se encantou e se deixou dominar pela cativante personalidade de José. Ele não tinha a preocupação de encantar, mas encantava... Aquela noite foi especial. Antônio conhecera sua futura esposa, e José e Manuel conheceram Lídia. Algum tempo depois, Manuel partiu para os Estados Unidos e Antônio, para a África. O Sol contente brilhava na proa do navio quando José partiu para o Rio de Janeiro. As gaivotas voavam, brancas, sobre o Tejo claro. Os amigos, de terra, acenavam o seu último adeus. E o rapaz sentia uma mistura de saudade pelas pessoas queridas que deixava em Portugal e de contentamento pelo futuro que o aguardava em uma terra distante, um sonho que estava se realizando. De repente conseguiu ver Lídia, sua ex-namorada. - Lídia! - Adeus! Eu sempre vou te amar. Escorriam lágrimas de seus olhos, e em um instante se deu conta de tudo que ficara para trás. Cerrava os dentes e soltava um grito seco. Via ao longe seus queridos pais e outros parentes e quase já não podia ver mais Lídia. - Seja feliz, Lídia. Não demos certo. Mas, tu vais comigo, para sempre. A viagem demorou uma eternidade, mais de um mês.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

De onde vem todo esse Obscurantismo?

 Na Grécia Antiga filósofos como Sócrates, Aristóteles e Platão, entre tantos outros, iniciaram um movimento novo na história. Uma nova tendência, algo revolucionário. Até então todas as explicações sobre quase tudo era baseado no sobrenatural, no misticismo. Basicamente na construção de um mito. Essa construção foi importante no sentido de unificar a sociedade, principalmente a partir do surgimento das grandes cidades. O que se acredita coletivamente se torna uma identificação cultural.

De certa forma, nenhum problema nisto. Animais, até onde sabemos, como tigres e girafas, não tem religiões, não constroem uma narrativa que se torna “a verdade”. Isso é típico do comportamento humano. Nossa espécie constrói mitos e ao redor dele se estabelecem uma série de valores e paradigmas, que são considerados moralmente corretos. Nada que seja necessariamente estabelecido por um “código de ética”, mas se desde o nascimento certos valores e histórias são repetidamente contadas, esse conjunto de estruturas narrativas se confirmam como o código de conduta moral e pessoal.

Voltemos aos gregos socráticos, onde surge a Filosofia. Algo novo que tenta se utilizar de outras ferramentas cognitivas. Parte do princípio de que nada sabemos. E que é necessário raciocinar para se buscar a verdade. Logo, perguntas são formuladas e estas são, dentro do possível, respondidas. Com o passar dos séculos muito do que Aristóteles escreveu se mostrou errado. Mas, foi um dos primeiros homens a formular, por exemplo, um modelo do Universo baseado em seu pensamento e nas observações.

A grande questão, mais do que o conhecimento enciclopédico já todo estabelecido, é o paradigma da forma de pensar. A Filosofia abriu um novo caminho para o ser humano, permitiu o surgimento da Ciência, séculos depois. Grandes nomes, como Galileu Galilei, Isaac Newton e Charles Darwin transformaram a humanidade em uma outra civilização. Muitos se beneficiam das aplicações da Ciência, a Tecnologia, mas não se questionam sobre como se chegou a esse grau de Desenvolvimento. Se a Filosofia não tivesse surgido, muito provavelmente você não se comunicaria com grupos de pessoas através de um sofisticado e pequeno equipamento, o telefone celular.

Infelizmente, a maneira de pensar do ser humano, em média, não mudou. Tivemos momentos de vanguardismo, como o Iluminismo e as Revoluções, mas a grande maioria continua vivendo sob os paradigmas mentais pré-socráticos. E não da época dos Sofistas, mas sim, por exemplo, da Antiga civilização Egípcia. Hoje, apenas uma pequena elite intelectual, realmente consegue viver mais livre no sentido do pensamento. Mas, a grande massa humana, continua assombrada pelos Demônios.

É uma constatação da realidade. E cada grupo humano considera que a sua religião é melhor, pois somente ela representa “a verdade”. Mas, a grande Verdade é que somos absolutamente pequenos frente a esse gigantesco Universo. Giodarno Bruno foi condenado à morte na fogueira pela Inquisição por propor que as estrelas fossem sóis distantes cercados por seus próprios planetas. Ao observar um buraco negro ou uma galáxia pensamos que realmente nada somos. O que não significa que não consigamos dar sentido à vida, muito pelo contrário. Pois, acreditar em narrativas montadas pelo ser humano é que não vai nos trazer um sentido verdadeiro.

De onde vem todo esse obscurantismo? A negação da Ciência. O método científico começa com o levantamento de uma hipótese. E exige que diversos critérios sejam seguidos para que se torne válida, através de experimentos, de comprovações baseadas em dados. Todo o rigor do método científico permite que hipóteses sejam continuamente refutadas ou aceitas. Logo, a ciência não é estática, ela é mutável. Muitos que rejeitam a ciência se beneficiam no dia a dia de seus inúmeros progressos, como o uso de um simples antibiótico. Cada um de nós precisa agir como um cientista, sempre em busca da Verdade, questionando tudo e estando atendo aos dados da realidade, assim como fez o personagem de Sean Connery em “O Nome da Rosa”. Somente desta forma estaremos perto da Verdade.

Há muito o que construir na nossa sociedade, no sentido de permitir o debate mais filosófico nas escolas e na família. A princípio nenhum pensamento deveria ser proibido, desde que fosse livre do misticismo. Bem no estilo de racionalismo de René Descartes, “Penso, logo existo”. Mas que também permita o entendimento do Empirismo. Muito deve ser entendido, questionado, o exercício do livre pensar junto com observações da realidade podem dar um Verdadeiro significado à vida humana.

O cientista Marcelo Gleiser propõe uma definitiva conciliação entre a Razão e a Fé. Talvez como Santo Agostinho fez na Idade Média, ao introduzir textos de Platão dentro da temática religiosa. Tenho dúvidas que essa suposta integração seja possível. Em geral, esperam que os racionais abram um espaço para o pensamento místico, nunca o contrário. Pois, os que seguem dogmas e narrativas místicas dificilmente se permitem a leitura de livros questionadores ou até mesmo evitam assistir certos tipos de filmes. Então, essa ligação entre extremos deveria propor que os meios religiosos debatessem mais sobre ciência, literatura, arte e cultura. O que não se verifica.

Enquanto o homem não se libertar de fato de suas amarras mentais o obscurantismo continuará reinando, como sempre o fez na história humana. A Terra continuará plana para muitos e as vacinas continuarão inimigas. Enfim, cabe a cada um de nós essa transformação. É preciso se questionar sobre toda uma imposição cultural desde a infância, o que é difícil. E que nesse caminhar não deixemos de amar os irmãos que continuam acreditando nas superstições. O primeiro passo precisa ser estimulado. Afinal, o ser humano é capaz de pensar de forma racional e buscar a verdade através da comprovação científica. Isso torna um indivíduo livre.

 

 

sábado, 6 de junho de 2020

José Simões




 O meu avô, José Simões, aos setenta e dois anos.

José Simões é filho de Manuel Simões, que emigrou para o Brasil no final do século XIX e conseguiu recursos para retornar a Portugal. De volta à terra natal, no começo do século XX, compra terras na freguesia de Semide, no concelho de Miranda do Corvo, em uma vila chamada de Casa Nova. Manuel se casa com Maria de Jesus e constroem uma casa onde os filhos foram criados. Com ela formou um lar laborioso onde nasceram nove filhos, duas meninas morreram novas, e sete meninos: Manuel, Antônio, José, Adelino, Guilherme, Henrique e Mendes. O meu avô, José Simões, nasceu no dia 16 de novembro de 1913, ele é o terceiro filho homem a nascer.
O pai de meu avô era trabalhador, sempre na lavoura, era rígido. A mãe dele, Maria de Jesus, fazia a comida para todos. Os irmãos ajudavam também em casa, a descascar batatas, escolher o feijão e outras tarefas. Às vezes vinha gente de fora, vinham trabalhar com eles. Os alimentos eram todos orgânicos e saudáveis.
Foram criados em uma casa muito grande, tinha uma varanda comprida. Tinham muito trabalho, na lavoura cultivando milho, cereais, feijão, batatas e no cuidado com os animais. Também faziam azeite e coletavam uvas para o preparo de vinho branco e tinto, mais para o consumo pessoal. Eles estudavam com professora particular, iam a casa deles. Era longe, cerca de uma hora a pé. Meu avô José estudou muito, era inteligente. Esse ensino foi importante em sua vida, porque mesmo sem frequentar uma escola ou participar do ensino formal, era capaz de fazer contas rapidamente, assim como lia razoavelmente bem. Ele também teve uma passagem pelas tropas.
Trabalhava na lavoura, não tinha muito tempo para estudar. Acordava cedo, com o nascer do sol, e trabalhava até a noite. Era uma vida simples, em família, onde se trabalhava muito, mas também havia momentos de distração nas festas. Os irmãos iam aos domingos, à noitinha, às festas para dançar, conversar e se divertir. Ficava longe, demorava duas ou três horas, ia com os colegas.  Às vezes era perto, quando não tinha era longe. As festas começavam nove da noite e iam até de manhã. Algumas festas podiam durar dias, começavam no sábado e duravam até quarta-feira ou quinta-feira da outra semana. Iam em casa dormir e voltavam para a festa.
A primeira metade do século XX foram tempos muito difíceis, principalmente para os povos europeus que passaram por duas grandes guerras mundiais. Foram milhões de vidas perdidas, doenças, desemprego, enfim, as nações europeias ficaram arrasadas economicamente após esses conflitos. Correntes emigratórias da Europa arrastaram milhões de pessoas em busca de um novo mundo, onde existisse paz, emprego e possibilidades de progresso. Enfim, os irmãos Simões emigram para os EUA, Brasil e Angola com muita coragem e determinação. Eles enfrentaram e venceram imensas dificuldades. O meu avô, José Simões, veio para o Brasil em 1936, com vinte e dois anos.
Em um trecho de uma carta escrita por Manuel Simões, o irmão mais velho que imigrou para os Estados Unidos, pode-se notar um belo conselho de um irmão preocupado com o irmão que agora estaria em terras estrangeiras.

Estado da Pensilvânia, Estados Unidos, 31 de março de 1936
(Cidade de Mahanoy)
José: alegrei-me em passares uma boa viagem de Portugal para o Brasil e também pelo fato de o Sr. Carvalho ir te esperar no Porto do Rio de Janeiro. José, agora que estás em terras estrangeiras. Portanto, fazes por ser homem em feitos e em tratos e em respeito. Pois, a pessoa sem respeito em parte nenhuma tem aceitação. E, Mano, nunca vás em lugares sem saber antes se te são convenientes.
Manuel Simões

Ao chegar ao Brasil, no Rio de Janeiro, recebeu ajuda de um amigo de seu pai, Antônio Carvalho. Logo depois se casou com Isaura de Carvalho, filha de Antônio, no dia 18 de dezembro de 1943. Os noivos receberam cumprimentos em sua residência, na Rua Benedicto Hypolito, 60, na Praça Onze. Trabalhou com seu sogro, também como feirante e depois teve mais de uma padaria. Como comerciante chegou a ter uma certa prosperidade.
A minha avó, Isaura de Carvalho, e sua família que também era grande, composta principalmente das filhas de Antônio Carvalho, acolheram o português José, que em seu íntimo sentia saudades de sua terra natal. Essa alegria e descontração, ouso dizer, tiveram origem na Praça Onze e no espírito da Cidade do Rio de Janeiro. Esse rígido homem entregou seu coração a Isaura e juntos tiveram dois filhos, José Antônio Simões e Maria de Fátima Simões.   


“A Praça Onze era um local de acolhimento e o epicentro de um sistema complexo de relações, que envolvia grupos de distintas religiões, condições financeiras, nacionalidades e etnias. O samba surge como produto de engajamento e entrosamento entre eles. Pessoas que se frequentavam, se ouviam, se cruzavam nas ruas, nos mercados, nas saídas e entradas das sinagogas, nas igrejas e nos terreiros“, disse o antropólogo Marco Antonio da Silva Mello, da UFRJ, em entrevista ao site do O Globo.

Seu irmão Manuel Simões, dos Estados Unidos, dizia em uma carta de 1940 que o irmão estava indo bem nos negócios aqui no Brasil.  José comprou uma casa na Rua Sampaio Viana, no bairro do Rio Comprido, e tinha alguns terrenos. Ele não chegou na verdade a ser rico, mas o suficiente para garantir o bem-estar de sua família. Quando seus irmãos vieram de Portugal se hospedaram em sua casa até se estabelecerem no país; ajudou financeiramente sobrinhos, amigos e parentes; quando seus filhos se casaram ajudou a terem sua casa própria.  

   José e Isaura Simões, com o filho José Antônio, nascido em 1945.

Encontro dos irmãos Simões e suas respectivas esposas, 1973.O meu avô é o segundo da esquerda para a direita.


Já aposentado o senhor José Simões, em 1982, caminha pela rua em direção a casa de seus filhos, na Tijuca, bairro da zona norte do Rio de Janeiro. Um senhor forte, de baixa estatura, rosto largo, calvo e com uma barriga proeminente seguia seu caminhar a passos firmes, vestindo sempre calça social, sapato e camisa de mangas curtas com botões. Seus óculos eram grandes e costumeiramente deixavam marcas em seu rosto.
Seu olhar era sério, mas afetuoso para os íntimos. As pessoas que o conheciam o respeitavam. Era uma pessoa de comportamento exemplar. Não fumava, não bebia, não tinha vícios e não incomodava ninguém. Era o que se pode chamar de homem de caráter. Sabia o que era certo e praticava, o que é mais difícil. Pois mantinha um comportamento condizente com seu caráter, em cada atitude e comentário. 

 Eu bebê, nos braços da avó Isaura. E meu irmão André, minha tia Fátima e meu avô Simões (1974).
 
Era uma pessoa de poucas palavras. Mas o que ele dizia não precisava ser explicado em detalhes. Era sempre o necessário para ajudar alguém, para fazer o que achava certo. As maiores qualidades do meu avô português não estavam relacionadas ao que ele dizia, ele não tinha muito estudo formal. Mas era um homem sábio e experiente. O seu maior conhecimento era sobre a vida. Com os dois pés no chão, seus sonhos eram bem concretos.
Aprendi muito com ele.  Mas ele era um outro tipo de professor, não aquele tipo que se propõem a ensinar teorias já codificadas e organizadas através da exposição oral e escrita. Ele era como um filósofo e professor muito mais efetivo, porque era um professor da vida, que nos ensinava através de métodos mais sofisticados. Em primeiro lugar ele era o exemplo da família, a pessoa que todos nós admirávamos. Era a referência que sabíamos que nunca atingiríamos em sua completude. Ele ensinava observando nossas vidas, mostrando o caminho a seguir. Falando e intervindo apenas quando suas palavras seriam importantes para nos ajudar.
Poucas pessoas são como ele. Assumiu responsabilidades e foi até o limite do que se considera alguém de caráter. Sempre que visitava alguém nunca trazia desconforto a ninguém. Estava ali sempre para ajudar, silenciando-se em atitude de respeito. Interessava-se particularmente pela vida de cada uma das pessoas que amava. Sua forma de amar era diferente. Era um amor que não era egoísta. Essa é uma palavra que o define, a falta de egoísmo. Antes de pensar em si mesmo, em se importar em “ser importante” ou parecer rico, culto ou belo, preocupava-se com sua família. Em trazer a verdade e a evolução para os que mais amava. Relembro situações em que ele se mostrou presente e amigo nas nossas vidas. Histórias que eu presenciei, outras me contaram e também frases que ele falou que nunca mais esqueci.
Meu avô ia na minha casa quase todos os dias. Sempre vinha com pão doce para o nosso lanche, era um gesto de carinho. Ali ele ficava, no sofá da sala, lendo o jornal. Nunca foi em nossa casa para trazer discórdia, fofoca ou julgar o nosso comportamento. Estava ali como um amigo, para ajudar.
Meu avô português apesar de não ter muito estudo formal era um grande incentivador do estudo. Lembro de inúmeras vezes ele dizendo para mim e o meu irmão: “Estudem para serem alguém na vida”. E aquelas poucas palavras vindas dele foram fundamentais.
Todos os dias ele ligava no final da noite, sempre, para saber se todos estavam bem. Não queria brigar, não exigia nada, apenas o principal.
Alguns dias antes de falecer de câncer de intestino eu e meu pai conversamos com ele. Meu avô perguntou o que ele tinha feito para estar passando por tamanho sofrimento. O meu pai respondeu que só os fortes suportariam... Pouco depois ele disse uma frase que nunca esqueceria: “a família é tudo”.

Carnaval, Eleições e Cerveja

  Carnaval no Brasil. E, neste ano, coincidência ou ironia, também ano eleitoral . Por aqui, aliás, tudo parece começar depois do Carnaval...