O meu avô, José Simões, aos setenta e dois anos.
José Simões é filho de Manuel Simões, que
emigrou para o Brasil no final do século XIX e conseguiu recursos para
retornar a Portugal. De volta à terra natal, no começo do século XX,
compra terras na freguesia de Semide, no concelho de Miranda do Corvo, em uma
vila chamada de Casa Nova. Manuel se casa com Maria de Jesus e constroem
uma casa onde os filhos foram criados. Com ela formou um lar laborioso onde
nasceram nove filhos, duas meninas morreram novas, e sete meninos: Manuel,
Antônio, José, Adelino, Guilherme, Henrique e Mendes. O meu avô, José Simões,
nasceu no dia 16 de novembro de 1913, ele é o terceiro filho homem a nascer.
O pai de meu avô era trabalhador, sempre
na lavoura, era rígido. A mãe dele, Maria de Jesus, fazia a comida para todos.
Os irmãos ajudavam também em casa, a descascar batatas, escolher o feijão e
outras tarefas. Às vezes vinha gente de fora, vinham trabalhar com eles. Os
alimentos eram todos orgânicos e saudáveis.
Foram criados em uma casa muito grande,
tinha uma varanda comprida. Tinham muito trabalho, na lavoura cultivando milho,
cereais, feijão, batatas e no cuidado com os animais. Também faziam azeite e
coletavam uvas para o preparo de vinho branco e tinto, mais para o consumo
pessoal. Eles estudavam com professora particular, iam a casa deles. Era longe,
cerca de uma hora a pé. Meu avô José estudou muito, era inteligente. Esse
ensino foi importante em sua vida, porque mesmo sem frequentar uma escola ou
participar do ensino formal, era capaz de fazer contas rapidamente, assim como
lia razoavelmente bem. Ele também teve uma passagem pelas tropas.
Trabalhava na lavoura, não tinha muito
tempo para estudar. Acordava cedo, com o nascer do sol, e trabalhava até a
noite. Era uma vida simples, em família, onde se trabalhava muito, mas também
havia momentos de distração nas festas. Os irmãos iam aos domingos, à noitinha,
às festas para dançar, conversar e se divertir. Ficava longe, demorava duas ou
três horas, ia com os colegas. Às vezes
era perto, quando não tinha era longe. As festas começavam nove da noite e iam
até de manhã. Algumas festas podiam durar dias, começavam no sábado e duravam
até quarta-feira ou quinta-feira da outra semana. Iam em casa dormir e voltavam
para a festa.
A primeira metade do século XX foram
tempos muito difíceis, principalmente para os povos europeus que passaram por duas grandes guerras mundiais. Foram milhões
de vidas perdidas, doenças, desemprego, enfim, as nações europeias
ficaram arrasadas economicamente após esses conflitos. Correntes
emigratórias da Europa arrastaram milhões de pessoas em busca de um novo
mundo, onde existisse paz, emprego e possibilidades de progresso.
Enfim, os irmãos Simões emigram para os EUA, Brasil e Angola com muita coragem
e determinação. Eles enfrentaram e venceram imensas dificuldades. O meu avô, José
Simões, veio para o Brasil em 1936, com vinte e dois anos.
Em um trecho de uma carta escrita por
Manuel Simões, o irmão mais velho que imigrou para os Estados Unidos, pode-se
notar um belo conselho de um irmão preocupado com o irmão que agora estaria em
terras estrangeiras.
Estado da
Pensilvânia, Estados Unidos, 31 de março de 1936
(Cidade de Mahanoy)
José: alegrei-me em passares uma boa
viagem de Portugal para o Brasil e também pelo fato de o Sr. Carvalho ir te
esperar no Porto do Rio de Janeiro. José, agora que estás em terras
estrangeiras. Portanto, fazes por ser homem em feitos e em tratos e em
respeito. Pois, a pessoa sem respeito em parte nenhuma tem aceitação. E, Mano,
nunca vás em lugares sem saber antes se te são convenientes.
Manuel Simões
Ao chegar ao Brasil, no Rio de Janeiro,
recebeu ajuda de um amigo de seu pai, Antônio Carvalho. Logo depois se casou
com Isaura de Carvalho, filha de Antônio, no dia 18 de dezembro de 1943. Os
noivos receberam cumprimentos em sua residência, na Rua Benedicto Hypolito, 60,
na Praça Onze. Trabalhou com seu sogro, também como feirante e depois teve mais
de uma padaria. Como comerciante chegou a ter uma certa prosperidade.
A minha avó, Isaura de Carvalho, e sua
família que também era grande, composta principalmente das filhas de Antônio
Carvalho, acolheram o português José, que em seu íntimo sentia saudades de sua
terra natal. Essa alegria e descontração, ouso dizer, tiveram origem na Praça
Onze e no espírito da Cidade do Rio de Janeiro. Esse rígido homem entregou seu
coração a Isaura e juntos tiveram dois filhos, José Antônio Simões e Maria de
Fátima Simões.
“A Praça Onze era um local de
acolhimento e o epicentro de um sistema complexo de relações, que envolvia
grupos de distintas religiões, condições financeiras, nacionalidades e etnias.
O samba surge como produto de engajamento e entrosamento entre eles. Pessoas
que se frequentavam, se ouviam, se cruzavam nas ruas, nos mercados, nas saídas
e entradas das sinagogas, nas igrejas e nos terreiros“, disse o antropólogo
Marco Antonio da Silva Mello, da UFRJ, em entrevista ao site do O Globo.
Seu irmão Manuel Simões, dos Estados
Unidos, dizia em uma carta de 1940 que o irmão estava indo bem nos negócios
aqui no Brasil. José comprou uma casa na
Rua Sampaio Viana, no bairro do Rio Comprido, e tinha alguns terrenos. Ele não
chegou na verdade a ser rico, mas o suficiente para garantir o bem-estar de sua
família. Quando seus irmãos vieram de Portugal se hospedaram em sua casa até se
estabelecerem no país; ajudou financeiramente sobrinhos, amigos e parentes;
quando seus filhos se casaram ajudou a terem sua casa própria.
José e Isaura Simões, com o filho José Antônio, nascido em 1945.
Encontro dos irmãos Simões e suas respectivas esposas, 1973.O meu avô é o segundo da esquerda para a direita.
Já aposentado o senhor José Simões, em
1982, caminha pela rua em direção a casa de seus filhos, na Tijuca, bairro da
zona norte do Rio de Janeiro. Um senhor forte, de baixa estatura, rosto largo,
calvo e com uma barriga proeminente seguia seu caminhar a passos firmes,
vestindo sempre calça social, sapato e camisa de mangas curtas com botões. Seus
óculos eram grandes e costumeiramente deixavam marcas em seu rosto.
Seu olhar era sério, mas afetuoso para
os íntimos. As pessoas que o conheciam o respeitavam. Era uma pessoa de
comportamento exemplar. Não fumava, não bebia, não tinha vícios e não
incomodava ninguém. Era o que se pode chamar de homem de caráter. Sabia o que
era certo e praticava, o que é mais difícil. Pois mantinha um comportamento
condizente com seu caráter, em cada atitude e comentário.
Eu bebê, nos braços da avó Isaura. E meu irmão André, minha tia Fátima e meu avô Simões (1974).
Era uma pessoa de poucas palavras. Mas o
que ele dizia não precisava ser explicado em detalhes. Era sempre o necessário
para ajudar alguém, para fazer o que achava certo. As maiores qualidades do meu
avô português não estavam relacionadas ao que ele dizia, ele não tinha muito
estudo formal. Mas era um homem sábio e experiente. O seu maior conhecimento
era sobre a vida. Com os dois pés no chão, seus sonhos eram bem concretos.
Aprendi muito com ele. Mas ele era um outro tipo de professor, não
aquele tipo que se propõem a ensinar teorias já codificadas e organizadas
através da exposição oral e escrita. Ele era como um filósofo e professor muito
mais efetivo, porque era um professor da vida, que nos ensinava através de métodos
mais sofisticados. Em primeiro lugar ele era o exemplo da família, a pessoa que
todos nós admirávamos. Era a referência que sabíamos que nunca atingiríamos em
sua completude. Ele ensinava observando nossas vidas, mostrando o caminho a
seguir. Falando e intervindo apenas quando suas palavras seriam importantes
para nos ajudar.
Poucas pessoas são como ele. Assumiu
responsabilidades e foi até o limite do que se considera alguém de caráter.
Sempre que visitava alguém nunca trazia desconforto a ninguém. Estava ali
sempre para ajudar, silenciando-se em atitude de respeito. Interessava-se
particularmente pela vida de cada uma das pessoas que amava. Sua forma de amar
era diferente. Era um amor que não era egoísta. Essa é uma palavra que o
define, a falta de egoísmo. Antes de pensar em si mesmo, em se importar em “ser
importante” ou parecer rico, culto ou belo, preocupava-se com sua família. Em
trazer a verdade e a evolução para os que mais amava. Relembro situações em que
ele se mostrou presente e amigo nas nossas vidas. Histórias que eu presenciei,
outras me contaram e também frases que ele falou que nunca mais esqueci.
Meu avô ia na minha casa quase todos os
dias. Sempre vinha com pão doce para o nosso lanche, era um gesto de carinho.
Ali ele ficava, no sofá da sala, lendo o jornal. Nunca foi em nossa casa para
trazer discórdia, fofoca ou julgar o nosso comportamento. Estava ali como um
amigo, para ajudar.
Meu avô português apesar de não ter
muito estudo formal era um grande incentivador do estudo. Lembro de inúmeras
vezes ele dizendo para mim e o meu irmão: “Estudem para serem alguém na vida”.
E aquelas poucas palavras vindas dele foram fundamentais.
Todos os dias ele ligava no final da
noite, sempre, para saber se todos estavam bem. Não queria brigar, não exigia
nada, apenas o principal.
Alguns dias antes de falecer de câncer
de intestino eu e meu pai conversamos com ele. Meu avô perguntou o que ele
tinha feito para estar passando por tamanho sofrimento. O meu pai respondeu que
só os fortes suportariam... Pouco depois ele disse uma frase que nunca
esqueceria: “a família é tudo”.