quinta-feira, 9 de dezembro de 2021
Os jovens Manuel, Antônio e José
Ao mesmo tempo em que brigava com os filhos, Manuel Simões escondia um
sorriso, era um pai muito amoroso. Manuel e sua esposa Maria de Jesus viviam
uma vida simples e feliz em uma aldeia em Coimbra, Portugal. Os filhos mais
velhos já estavam ficando homens. E Manuel tinha um plano para eles,
fascinava-se por essa ideia. Manuel tinha vinte e dois anos, Antônio era dois
anos mais novo do que Manuel e José, o mais novo, tinha dezoito anos. Comendo
um pernil assado com batatas e repolho, o homem olhava pela janela, o seu
olhar era distante, parecia, enfim, que o seu sonho estava próximo de se
concretizar. As árvores eram lindas naquela época do ano em Portugal. - Mulher
me passa o vinho. - Está aqui, meu senhor. - Está bom mulher. Tu és uma boa
mulher. Falas pouco, trabalhas muito, é assim que tem que ser, ouviram
rapazes? Não vão se casar com a primeira rapariga que aparecer. Casamento é
coisa séria. Boa mulher é como esta, a mãe de vocês. Bebendo o vinho e olhando
ao longe, via muito além da montanha toda coberta de verde. Via a sua vontade
de mudar, de transformar o mundo. Não mais através de si mesmo, pois já era um
homem velho, com quarenta anos. Seus filhos iriam conquistar o mundo. - Vocês
têm pouco estudo, a situação aqui não vai mudar, nós somos pobres. Nós
trabalhamos em plantações de verduras e de frutas. - Esse mundo está muito
difícil. Muitas guerras, fome. É melhor vocês irem embora. Vai ter que ser
assim. Nosso povo sempre emigrou para longe, e vivemos a hora certa para fazer
isto. Vamos buscando uma vida melhor. Um dia Dom João VI fugiu de Portugal,
Napoleão quase o pegou. Mas, foi o melhor que ele podia fazer, foi um rei
inteligente. Eu e a mãe de vocês estamos velhos, não temos condições de sair
daqui. Os rapazes ouviam aquela história desde pequenos. Sabiam que um dia
isso iria acontecer. Foi o que os vizinhos fizeram, era o que todos faziam.
Iam embora, buscavam uma vida melhor em outro país, em outro continente. Mas,
Antônio não queria ir. - Eu não vou. - Tu vais menino. Está tudo certo. Aqui
na aldeia conhecemos as pessoas certas. Eu já estive no Brasil, quase fiquei
por lá. Tenho um amigo lá, um de vocês vai para a casa dele, o nome dele é
Antônio Carvalho. Também tenho conhecidos nos Estados Unidos e na África, em
Angola. - Cada um de vocês vai para um lugar diferente. Quero espalhar meus
filhos pelo mundo. Cada um vai para um país diferente. Manuel, tu já estás um
homem, você vai para os Estados Unidos da América. José, você vai para o
Brasil e tu, meu pequeno Antônio, vai para a África. Este é o meu sonho, é
assim que vai ser. Os mais novos, Guilherme, Henrique, Adelino e Mendes irão
depois também. Os anos se passaram, os meninos continuaram crescendo, fortes e
saudáveis. As oportunidades de prosperar na aldeia não eram muitas.
Entretanto, a vida no interior os fascinava. Não foram para a escola. Um
professor ia à casa das pessoas, ensinava alguma coisa. O suficiente para
aprenderam a ler e escrever, mesmo que de forma limitada. Aquele era o mundo
deles, com as lendas e tradições. Respeitavam muito seus pais, eram católicos,
iam sempre à missa e acreditavam no valor do trabalho. Uma das lendas dizia
que o sétimo filho de um casal se transformaria em lobisomem nas noites de lua
cheia. Havia várias outras lendas, que tinham uma origem pouco conhecida,
surgiram da antiga tradição oral. Os adultos contavam para as crianças e essas
histórias se perpetuavam, talvez tenham surgido na Idade Média ou até antes,
afinal, Portugal, como Reino, foi estabelecido em 1139 – e, antes disto, houve
a dominação pelo Império Romano, a presença germânica, celta, visigoda, moura,
dentre outras. Algumas histórias falavam de guerreiros, de batalhas e de
antigos reis. Muitas histórias surgiram do imaginário do povo. Falavam de
espíritos que percorriam as florestas. E que ninguém poderia estar na floresta
quando um espírito desses passasse. Na dúvida todos preferiam acreditar nessas
histórias, na tradição oral. Juntavam tudo isso com a antiga cultura
portuguesa. Com o respeito aos pais, que eram chamados de senhores. E,
principalmente, com os costumes e valores da tradição católica portuguesa. Não
era uma época ou lugar para se questionar os valores. Isso ocorreria muitos
anos depois. A mulher tinha um papel social bem definido. Deviam respeitar os
seus maridos, também os chamavam de senhor. Mas, na prática, o poder delas era
grande, no seio familiar. Valorizavam muito os cuidados com a saúde, era assim
que sempre começavam a escrever uma carta, perguntando pela saúde. Era o mais
importante da vida, cuidar da saúde. O homem vivia, em média, trinta e cinco
anos. Em Portugal, naquela época, uma doença um pouco mais complicada poderia
levar um jovem à morte. Viver ou morrer? Toda semana alguém morria na aldeia.
Era sexta-feira, naquela noite os rapazes iriam para uma festa um pouco
afastada da aldeia. Eles iam a pé, arrumados e esperançosos de encontrar o
amor. Cada um dos irmãos tinha uma personalidade diferente. Manuel era o mais
sedutor, era um galanteador, e já acumulava algumas namoradas. Dançava muito
bem e era muito extrovertido. José era o oposto de Manuel, em quase tudo. Era
um pouco mais baixo e forte. Era um rapaz muito sério e dedicado ao trabalho,
não gostava de dançar e pensava em encontrar uma mulher para se casar. Se não
encontrasse esse amor em Portugal, então teria que procurar no Brasil a sua
esposa. Antônio sempre ficava perto dos irmãos, era muito tímido. Mas, com o
tempo podia fazer boas amizades e era uma pessoa muito boa. - Vamos dançar com
aquelas meninas, José? - Eu não as conheço, são da Aldeia da Passagem? - E o
que importa? Elas são bonitas, isso é o mais importante. Olha o que vai
perder, só digo isso porque tu és meu irmão e até o Antônio podia dançar com
aquela pequena ali, a morena. - É sério? Então seria bom para o nosso menino
Antônio. Bom, vamos lá. Ao ouvir isso, o coração de Antônio disparou. Ele até
achou as meninas bonitas, já estava nervoso, quase tremendo. José não gostava
de galantear qualquer moça, gostava de encontros com grupos conhecidos, dentro
de certas regras. Era um homem previsível e não gostava de qualquer situação
fora do esperado. Mas, não era tímido como Antônio. Apenas era muito
conservador e introvertido. Mas era um homem bom, tinha um grande coração. Ao
ver a possibilidade de ajudar o irmão a superar a timidez encarou a situação
como uma missão, aí se transformava em um Leão. Depois de alguns segundos de
caminhada pelo salão os irmãos se aproximaram das belas meninas. - Como estão
as mais belas meninas da festa? Manuel lançava todo o seu charme e falava mais
com o corpo do que com as palavras, e sempre sorrindo fazia gestos alongados.
José e Antônio mantinham-se rígidos, como as amendoeiras da aldeia. As três
meninas sorriram, todas acharam Manuel bonito, mas uma delas, a mais bela, uma
moça de Lisboa que visitava a Aldeia para conhecer a irmã de sua mãe,
encantara-se por José. Ela era uma moça de dezesseis anos, loira e de grandes
olhos verdes. Passaram-se alguns segundos e os olhos de José e Lídia se
encontraram. Naquele instante, José sentiu-se fisgado por aqueles lindos
olhos. O que era aquilo? Nunca tinha visto um rosto tão bonito em toda a sua
vida. Manuel percebeu a situação e foi dançar com a menina mais alta do grupo.
José ficou paralisado, com as sobrancelhas levantadas. Esforçou-se para
convidar a moça para a dança. - Você, quer dizer, a senhorita gostaria de
dançar? - Sim, eu aceito. Antônio nem chegou a convidar a outra moça, não
tinha essa coragem, apenas segurou a mão da menina e foram andando em direção
ao centro do salão. A estratégia deu certo, e logo os dois estavam dançando
animados e felizes. Logo Lídia percebeu que José não sabia dançar. Mas, em
pouco tempo a bela e a fera começaram a dançar de verdade. A emoção fizera com
que José se soltasse, o vinho também ajudou bastante. Depois de algum tempo,
os irmãos e seus pares se sentaram em uma mesa para conversar e se conhecerem
melhor. Manuel não gostou da moça com quem dançou, apesar de ser uma bela
menina eles não se entrosaram e, na verdade, ele começou a perceber a presença
de Lídia. Ela era uma mulher diferente, vestia-se com uma roupa da cidade.
Parecia ser uma menina rica, o que se confirmou quando eles conversaram.
Manuel então se interessou muito pela moça, mas Lídia só tinha olhos para
José. - Você é aqui da aldeia? Parece que não. - Eu não sou de aldeia, meus
pais moram em Lisboa, na capital. - E o que o seu pai faz? - Ele é médico. - E
vocês vieram conhecer a vida no interior? - Na verdade não. A minha tia, irmã
da minha mãe está muito doente, viemos visitá-la e o meu pai também veio para
ver o que pode fazer por ela. Mas, o caso dela é muito grave. A maneira de
falar dela era diferente. Era uma moça que pertencia a outro mundo. Todos na
aldeia eram praticamente analfabetos. Apenas na cidade, naquela época, os
filhos das famílias ricas podiam se tornar doutores. José nem sabia mais o que
conversar com aquela moça tão sofisticada. Mas, o olhar dela lhe transmitia
confiança e assim, depois dele oferecer a ela uns bolinhos de bacalhau e uma
taça de vinho, eles conversavam já com certa intimidade. O que ela viu nele?
José não tinha muita cultura, mas havia algo nele que impressionava a moça.
Ele tinha uma postura máscula, certa altivez de caráter, difícil de encontrar
na cidade um homem assim, pensava Lídia. Ele era um homem que não tinha medo,
era corajoso e destemido. Se lhe fosse permitido estudar era provável que se
tornasse um grande doutor. Em pouco tempo Lídia se encantou e se deixou
dominar pela cativante personalidade de José. Ele não tinha a preocupação de
encantar, mas encantava... Aquela noite foi especial. Antônio conhecera sua
futura esposa, e José e Manuel conheceram Lídia. Algum tempo depois, Manuel
partiu para os Estados Unidos e Antônio, para a África. O Sol contente
brilhava na proa do navio quando José partiu para o Rio de Janeiro. As
gaivotas voavam, brancas, sobre o Tejo claro. Os amigos, de terra, acenavam o
seu último adeus. E o rapaz sentia uma mistura de saudade pelas pessoas
queridas que deixava em Portugal e de contentamento pelo futuro que o
aguardava em uma terra distante, um sonho que estava se realizando. De repente
conseguiu ver Lídia, sua ex-namorada. - Lídia! - Adeus! Eu sempre vou te amar.
Escorriam lágrimas de seus olhos, e em um instante se deu conta de tudo que
ficara para trás. Cerrava os dentes e soltava um grito seco. Via ao longe seus
queridos pais e outros parentes e quase já não podia ver mais Lídia. - Seja
feliz, Lídia. Não demos certo. Mas, tu vais comigo, para sempre. A viagem
demorou uma eternidade, mais de um mês.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Carnaval, Eleições e Cerveja
Carnaval no Brasil. E, neste ano, coincidência ou ironia, também ano eleitoral . Por aqui, aliás, tudo parece começar depois do Carnaval...
-
Beirando os cinquenta, Gabriel decidiu que era hora de procurar um amigo perdido. A decisão não nasceu de um lampejo heroico, mas de uma c...
-
Carnaval no Brasil. E, neste ano, coincidência ou ironia, também ano eleitoral . Por aqui, aliás, tudo parece começar depois do Carnaval...
-
Nós somos pessoas comuns. Vivemos em uma sociedade consumista, onde a escala de valor pessoal depende de “ter” bens e produtos. O que se tor...
Nenhum comentário:
Postar um comentário