quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Dirce Cortinhas




O pão de minuto, o biscoito de goiaba... Ah! Encantavam as minhas tardes vazias. Você fazia gracinhas sem graça. Nunca deixou passar um dia sem falar com teus filhos. Não te cansou de abrir caminho para teu ex-marido e seus dois filhos. Minha mãe foi como as agulhas de costura que abrem caminho para as linhas.

Contou dias e traças, olhou a Lua e estrelas. E aos poucos que chegassem dizia: Bom dia! Oh! Que beleza! Você não se alimentou de egoísmo, inveja e malefícios. Minha mãe foi péssima em marketing. Fez o que ninguém soube. Não terminou o segundo grau, abandonou o normal, que cursava brilhantemente, para mais uma vez cuidar da casa.

Aos domingos preparava pratos deliciosos, lembro de peixes assados, enormes, bem saborosos. Fazia camarão catupiry, bacalhau, bolos...

Foste bonita, a mais bonita e encantaste teu Batman por décadas. Seu pai, simpático e pouco prudente, te amou profundamente. Para ele sempre foste uma menina que cabia a ele somente a proteção e o amor. E até o teu Batman, com sua capa importante de guerreiro pode ainda te amar profundamente, mas na penumbra da noite, nos teus devaneios sonhos. Ele poderia até em seu último suspiro lembrar de você como uma menina de dezesseis anos, caminhando, indo embora, para sempre...

Você foi uma grande mãe. Cuidou, zelou, era a PM (Polícia Militar) do prédio, pois ficava sempre preocupada com o bem-estar de seus filhos. Uma vez, a que lembro, podem ter tido outras, salvaste a minha vida. Brincando, com cerca de 11 anos, fui me enrolando na grossa cortina do quarto dos meus pais. Chegou um momento que me vi preso, não tinha como sair, comecei a gritar. Fui ficando roxo, sem ar, desesperado. Passou um tempo e depois no meio daquele desespero percebo que você estava desenrolando a cortina.

A sociedade cobra um largo sorriso, uma simpatia admirável. Mas para que isso serve? O ser humano sofre sim, e nem sempre conseguiste evitar essa lamúria mal resolvida. Foste tripudiada pela vida, cansou...

O tempo passou e os filhos da Robin mulher se tornaram homens e viveram, erraram. E de forma surpreendente o nosso herói esquecido, o nosso macunaíma estava lá. Com seu sorriso e as piadas sem graça, que tantas vezes eu ri descontroladamente. "Olha sua tia ali. Olha um mini (homem pequeno)"; E recarregamos nossas baterias após ficarmos sem rumo e você estava la, sempre disponível. Para uma conversa, um café ou uma pizza. Isso era a prova do amor de mãe, mas de uma mãe capaz de se doar. 

No geral você foi como o velho pescador de “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway. Lutou, passou por tempestades colossais, tubarões te morderam, ficaste sem forças. Com o tempo segurou firme a espinha de um enorme tubarão, era o que tinha pescado. Quando foi mostrar a todos ele caiu no mar e ninguém mais acreditou.

Esse enorme peixe, que te machucara também sofreu, ficou contigo agonizando, quase morreu. Ele escapou para sempre. Desesperada tentou de tudo. Colocou Vieira em seu nome, trocou a roupa, arrumou a casa, de nada adiantou.

Mas, em nossos corações digo que não precisas mostrar nenhum peixe. Nós somos testemunhas de toda sua história. Todos nós erramos, somos seres sem endereço procurando o caminho de casa. E qual é a casa? Abusada e tripudiada pela vida. Não perdeu o encanto em seu canto. A casa sempre arrumada. Aos domingos sobrava a solidão. No Natal sofria de recordações. Como uma princesa abandonada teu choro já não era mais ouvido.

Mas, como um soldado resistente ficava de pé. A cada penoso dia permaneces de pé, firme, sobrevivendo sozinha. És forte demais, és como um samurai guerreiro milenar. Tua espada, escondida em algum lugar, te protege. Não te sobras nada, é como o vento. E, firme, entre um programa evangélico e uma palestra do Villa, resiste. Essa tua resiliência é um ensinamento. Quando o vento forte bate enverga bastante, mas não quebra.

Nunca será possível deixar de notar todo aquele desperdício. Porque Dona Dirce não era um ser humano banal. Deixava um colorido muito especial marcado nos nossos corações.

Você me diria para, se puder, não te esquecer num canto qualquer, como na letra de Toquinho. Nunca, jamais...



Um comentário:

  1. Muito lindo sincero e emocionante...pude sentir cada frase e me senti como uma espectadora dentro de um filme.
    Linda e merecida homenagem!

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