Contou dias e traças, olhou a Lua
e estrelas. E aos poucos que chegassem dizia: Bom dia! Oh! Que beleza! Você não
se alimentou de egoísmo, inveja e malefícios. Minha mãe foi péssima em
marketing. Fez o que ninguém soube. Não terminou o segundo grau, abandonou o
normal, que cursava brilhantemente, para mais uma vez cuidar da casa.
Aos domingos preparava pratos
deliciosos, lembro de peixes assados, enormes, bem saborosos. Fazia camarão
catupiry, bacalhau, bolos...
Foste bonita, a mais bonita e encantaste teu Batman por décadas. Seu pai, simpático e pouco prudente, te amou profundamente. Para ele sempre foste uma menina que cabia a ele somente a proteção e o amor. E até o teu Batman, com sua capa importante de guerreiro pode ainda te amar profundamente, mas na penumbra da noite, nos teus devaneios sonhos. Ele poderia até em seu último suspiro lembrar de você como uma menina de dezesseis anos, caminhando, indo embora, para sempre...
Você foi uma grande mãe. Cuidou,
zelou, era a PM (Polícia Militar) do prédio, pois ficava sempre preocupada com
o bem-estar de seus filhos. Uma vez, a que lembro, podem ter tido outras,
salvaste a minha vida. Brincando, com cerca de 11 anos, fui me enrolando na
grossa cortina do quarto dos meus pais. Chegou um momento que me vi preso, não
tinha como sair, comecei a gritar. Fui ficando roxo, sem ar, desesperado.
Passou um tempo e depois no meio daquele desespero percebo que você estava
desenrolando a cortina.
A sociedade cobra um largo
sorriso, uma simpatia admirável. Mas para que isso serve? O ser humano sofre
sim, e nem sempre conseguiste evitar essa lamúria mal resolvida. Foste
tripudiada pela vida, cansou...
O tempo passou e os filhos da Robin mulher se tornaram homens e viveram, erraram. E de forma surpreendente o nosso herói esquecido, o nosso macunaíma estava lá. Com seu sorriso e as piadas sem graça, que tantas vezes eu ri descontroladamente. "Olha sua tia ali. Olha um mini (homem pequeno)"; E recarregamos nossas baterias após ficarmos sem rumo e você estava la, sempre disponível. Para uma conversa, um café ou uma pizza. Isso era a prova do amor de mãe, mas de uma mãe capaz de se doar.
No geral você foi como o velho
pescador de “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway. Lutou, passou por
tempestades colossais, tubarões te morderam, ficaste sem forças. Com o tempo
segurou firme a espinha de um enorme tubarão, era o que tinha pescado. Quando
foi mostrar a todos ele caiu no mar e ninguém mais acreditou.
Esse enorme peixe, que te
machucara também sofreu, ficou contigo agonizando, quase morreu. Ele escapou
para sempre. Desesperada tentou de tudo. Colocou Vieira em seu nome, trocou a
roupa, arrumou a casa, de nada adiantou.
Mas, em nossos corações digo que
não precisas mostrar nenhum peixe. Nós somos testemunhas de toda sua história.
Todos nós erramos, somos seres sem endereço procurando o caminho de casa. E
qual é a casa? Abusada e tripudiada pela vida. Não perdeu o encanto em seu
canto. A casa sempre arrumada. Aos domingos sobrava a solidão. No Natal sofria
de recordações. Como uma princesa abandonada teu choro já não era mais ouvido.
Mas, como um soldado resistente ficava de pé. A cada penoso dia permaneces de pé, firme, sobrevivendo sozinha. És forte demais, és como um samurai guerreiro milenar. Tua espada, escondida em algum lugar, te protege. Não te sobras nada, é como o vento. E, firme, entre um programa evangélico e uma palestra do Villa, resiste. Essa tua resiliência é um ensinamento. Quando o vento forte bate enverga bastante, mas não quebra.
Nunca será possível deixar de
notar todo aquele desperdício. Porque Dona Dirce não era um ser humano banal. Deixava
um colorido muito especial marcado nos nossos corações.
Você me diria para, se puder, não te esquecer num canto qualquer, como na letra de Toquinho. Nunca, jamais...

Muito lindo sincero e emocionante...pude sentir cada frase e me senti como uma espectadora dentro de um filme.
ResponderExcluirLinda e merecida homenagem!